Poucas personalidades do cinema foram tão icônicas quanto a atriz que parou o trânsito, literalmente, ao gravar uma das cenas mais famosas de Hollywood, quando, em pé na calçada, tenta evitar que seu vestido branco esvoaçante mostre mais do que o devido ao ser levantado pela corrente de uma saída do ar do metrô. Poucas pessoas causaram mais perplexidade quanto a mulher que, dentro de um vestido deslumbrante e justíssimo, canta, num tom muito sensual, um Parabéns pra Você para o então presidente dos EUA, John Kennedy. Poucas pessoas criaram tanta comoção global ao encontrar seu fim trágico.

Essa mulher foi Marilyn Monroe, encontrada morta na noite de 4 para 5 de agosto de 1962, em sua casa em Beverly Hills, interrompendo uma carreira inesquecível que, ainda hoje, seis décadas depois, continua a despertar curiosidade e teorias da conspiração. Apenas neste ano, a Netflix lançou o documentário O Mistério de Marilyn Monroe: Gravações Inéditas, que traz detalhes dos seus últimos dias e possíveis tramas para maquiar as circunstâncias da overdose de medicamentos e bebidas que a teria matado. E no mês que vem chega à mesma plataforma de streaming o filme Blonde, também sobre Marilyn.

Estrelada pela atriz Ana de Armas – que passou por uma impressionante transformação para ficar praticamente idêntica à personagem –, essa cinebiografia é baseada não em relatos e documentos jornalísticos a respeito de Marilyn Monroe, e sim num romance da escritora nova-iorquina Joyce Carol Oates, que toma a trajetória atribulada da estrela de Hollywood como tema de sua literatura. Essa não deixa de ser mais uma prova do fascínio irresistível que a loira mais famosa da história do cinema consegue despertar. Vale lembrar que outro nome de peso das letras dos EUA, Norman Mailer, também escreveu sobre ela.

Em Blonde, as dores da menina que teve uma infância em casas de acolhida e pouco afeto são retratadas. Essa infância cheia de traumas, com a pequena Norma Jeane Mortenson (nome real da atriz) vivendo aos cuidados de vizinhos até os 8 anos de idade, depois de ser concebida em um caso passageiro entre seus pais, com o progenitor fugindo e passando anos sem dar as caras, é explorada na produção, como, aliás, nas dezenas de biografias já escritas sobre Marilyn Monroe. Em um relato autobiográfico, publicado postumamente em 1974, ela mesma testemunha tais vazios, o que Carol Oates retomou em seu enredo.

Dessa forma, os lados menos glamorosos da atriz mais famosa do século 20 voltam à tona, algo que nunca foi segredo para ninguém, nem mesmo quando ela era viva. Os casamentos fracassados, a frustração por não ter sido mãe, a dependência química e as internações eram pratos cheios para a imprensa sensacionalista sobre celebridades do tempo em que Marilyn eletrizava as plateias com seu sexy appeal único. Após sua morte, somaram-se a esses dramas pessoais várias teorias conspiratórias envolvendo políticos poderosos, que teriam interferido até na terrível cena de sua morte naquele agosto de 1962.

O documentário O Mistério de Marilyn Monroe tem exatamente esse chamariz. Usando trechos da investigação que se seguiu à morte da atriz, a produção reproduz depoimentos da época e entrevista parentes de pessoas que estiveram diretamente envolvidos com a estrela na última fase de sua vida. O filme se baseia na pesquisa que foi realizada no início dos anos 1980 pelo jornalista Anthony Summers, que reuniu evidências contestando a versão oficial sobre a overdose sofrida pela atriz e de como seu corpo foi encontrado na manhã do dia 5 de agosto. Testemunhas juram que a história real é outra.

O possível caso da atriz com o presidente John Kennedy – a cena em que ela canta Happy Birthday, Mr. President para JFK no Madison Square Garden ocorreu menos de três meses antes de sua morte – era um segredo de polichinelo. O mesmo poderia ser dito da relação dela com o outro Kennedy, Bob, então procurador-geral do governo do irmão e que seria assassinado durante sua própria campanha à Casa Branca. Esses envolvimentos perigosos teriam, segundo o documentário, tornado Marilyn um alvo para os inimigos dos Kennedys e também um incômodo para a família mais poderosa da América.

A possibilidade de que Bob Kennedy teria estado na casa da atriz na noite de sua morte é novamente aventada na produção, uma vez que ele se encontrava em Los Angeles. Há revelações de confidências de Marilyn ao seu terapeuta e depoimentos que atestam que ela chegou a ser socorrida em uma ambulância, morrido num hospital e seu corpo levado de volta à casa, onde a cena da overdose no quarto teria sido montada. O caso chegou a ser reaberto 20 anos depois, mas sem chegar a novas conclusões. Mistérios que adubam os enigmas em torno do maior sexy symbol que a indústria do cinema já produziu.

Uma carreira atribulada

O documentário O Mistério de Marilyn Monroe, da Netflix, traz uma revelação que ilustra como a carreira de uma das mulheres mais desejadas do mundo continha elementos de violência e desilusão. Logo após o diretor Billy Wilder – que tinha adoração pela atriz e que hoje repousa no mesmo cemitério onde ela também está enterrada, no Westwood Village Memorial Park, em Los Angeles – gravar a icônica cena do vestido que é levantado por uma corrente de ar, em O Pecado Mora ao Lado, Marilyn, então casada com ídolo do beisebol Joe DiMaggio, foi agredida fisicamente por ele no hotel num ataque de ciúmes.

O casamento suntuoso dessas duas celebridades parou os Estados Unidos e DiMaggio, mesmo após a morte dela, disse, numa entrevista ao escritor Gay Talese, reproduzida no livro Fama & Anonimato, que nunca deixou de amá-la. Os ciúmes, porém, não permitiram que eles ficassem juntos. Marilyn arrastava multidões por onde passava e suas cenas sensuais tinham grande repercussão. Muitas vezes fazendo o tipo da beldade inocente, que não tinha noção da própria beleza e do furor que provocava, ela sabia dosar muito bem esse traço, com enorme carisma e um tempo cômico que hoje é reconhecido como perfeito.

Sim, Marilyn era uma excelente atriz, o que fica patente nos filmes que fez, e não apenas comédias. A última produção que conseguiu completar – coincidentemente também o derradeiro trabalho de seu parceiro de cena, o astro Clark Gable – revela uma artista segura no papel, uma ex-stripper que encontra dois homens com vidas cheias de cicatrizes. Sob a batuta do exigente diretor John Huston, ela não se intimidou em sua atuação nesta produção cheia de tramas e camadas, mesmo contracenando com gigantes – além do astro de E O Vento Levou…, integram o elenco atores como Montgomery Clift e Eli Wallach.

Esta foi a despedida de uma carreira que começou timidamente, sem escapar dos estereótipos que cercavam toda moça bonita que chegava a Hollywood. Documentários e biografias demonstram que ela foi sugada por um ambiente tóxico, com executivos e agentes que se aproveitavam dos sonhos de mulheres que não tinham como se defender, se quisessem manter alguma chance de sucesso. As primeiras imagens famosas de Marilyn Monroe são de 1949, um ensaio nu feito pelo fotógrafo Tom Kelley para um calendário. Só que Hugh Hefner, ao fundar a revista Playboy, comprou e usou as fotos.

Essa pecha de “primeira coelhinha da Playboy” nunca a deixou, gerando assédios por parte dos homens e comentários nada lisonjeiros por parte das mulheres. Ainda assim, Marilyn conseguiu superar preconceitos do tipo, depois de viver o trauma de ter sua participação cortada no primeiro trabalho e de já ter sido despedida de dois grandes estúdios aos 23 anos de idade. Quando finalmente conseguiu um papel de destaque em 1950, na produção O Segredo das Joias, de John Huston, ela já havia se divorciado do primeiro marido, James Dougherty, funcionário de uma empresa de aviação, e fazia uso de barbitúricos e álcool.

Sua carreira durou pouco mais de uma década, mas parece que foi um século, tamanho o impacto que causou. Em alguns filmes antológicos, como A Malvada, estrelado pela diva Bette Davis, ela teve papel secundário, mas encadeou uma sequência de comédias românticas que a fizeram conquistar o público. Com produções como Só a Mulher Peca, Travessuras de Casados, Os Homens Preferem as Loiras, Como Agarrar um Milionário, Torrentes de Paixão, O Príncipe Encantado, Nunca Fui Santa, O Pecado Mora ao Lado e Quanto Mais Quente Melhor, Marilyn tornou-se a grande estrela do cinema nos anos 1950.

Já no drama, ela se aventurou menos. Um dos poucos trabalhos do gênero no currículo é o filme O Rio das Almas Perdidas, de Otto Preminger. Atriz predominantemente de comédias, muitas vezes repetindo um tipo só de personagens, Marilyn não caiu nas graças da Academia de Hollywood. Jamais sequer teve uma indicação ao Oscar, mas levou para casa dois Globos de Ouro, um por sua performance hilária em Quanto Mais Quente Melhor, de Billy Wilder, fazendo tabelinhas inspiradas com Jack Lemmon e Tony Curtis, que vivem duas testemunhas de um crime e se vestem de mulheres para escapar dos bandidos.

A insegurança sobre sua capacidade de atuação era um dos pesadelos de Marilyn. Ela admite isso nas confissões que deixou para a posteridade e esse medo está também nas memórias de quem a conheceu. No texto Uma Criança Linda, que está na antologia Música para Camaleões, o escritor Truman Capote narra o episódio em que ambos foram ao velório de Constance Collier, professora de interpretação de estrelas como Katharine Hepburn. Nessa ocasião, Capote conta a Marilyn que Constance lhe revelou que Greta Garbo gostaria de contracenar com a loira. Absolutamente maravilhada, ela o convida a celebrar.

Estrela após a morte

Geralmente, a tendência é que as pessoas caiam no esquecimento à medida que o tempo passa após seu desaparecimento. Com Marilyn Monroe ocorreu o contrário. Sua imagem passou a ser ainda mais cultuada e as produções em torno de sua vida não cessam há 60 anos. As duas produções recentes da Netflix – o documentário O Mistério de Marilyn Monroe e a cinebiografia Blonde – são mais dois exemplos desse fenômeno, que começou logo após sua morte. Já em 1963, apenas um ano depois de seu falecimento, era lançado o primeiro documentário sobre a atriz, a produção Marilyn, do diretor Harold Medford.

Daí por diante, não parou mais. Em 1966, foi realizado um documentário para a TV chamado A Lenda de Marilyn Monroe, com depoimentos sobre ela fornecidos por pesos-pesados, como o diretor John Huston, o ator Tony Curtis e a atriz Lauren Bacall, que contracenou com a colega em Como Agarrar um Milionário. Ficou famosa uma foto de Lauren com seu marido, o astro Humphrey Bogart, e Marilyn, no momento em que ele dá uma espiada indiscreta no decote da sex symbol. Atrair tais olhares era comum. Em outra imagem notória, Sophia Loren parece medir com os olhos as curvas da colega loira.

Outro filme do gênero é Diga Adeus ao Presidente e foca nos derradeiros meses de vida da atriz, com ênfase nas supostas relações dela com os irmãos Kennedy. Em 2012 foi lançado outro documentário, Love, Marilyn, baseado nas anotações pessoais da estrela. Em 2011, a atriz Michelle Williams a encarnou em Sete Dias com Marilyn, performance que lhe rendeu um Globo de Ouro e uma indicação ao Oscar. O filme aborda um período em que ela era casada com o dramaturgo Arthur Miller e passou uma temporada em Londres para gravar um filme com Sir Laurence Olivier, ator icônico e que se apaixonou pela colega.

A produção mostra uma faceta recorrente na estrela: despertar amores, muitas vezes involuntariamente. Na trama, o ator das tragédias de Shakespeare se viu nessa situação, sem que isso passasse despercebido por sua esposa, a igualmente lendária atriz Vivien Leigh, estrela de E O Vento Levou... Ao ter seu talento reconhecido por grandes diretores e contracenar com os principais nomes de Hollywood, Marilyn superou barreiras. Se não fossem tantos problemas pessoais e vícios, que passaram a interferir em sua disciplina de trabalho e a levou à morte, sua carreira teria sido, certamente, ainda mais brilhante.

Cenas eternas

Marilyn Monroe protagonizou momentos antológicos no cinema. Lembramos aqui três deles.

O vestido que sobe – Certamente uma das imagens que a imortalizaram, a tomada, ao lado do ator Tom Ewell em O Pecado Mora ao lado, ganhou paródias e tornou-se icônica. Ainda que haja uma história triste nos bastidores dessa filmagem, ela entrou para a história.

O baile – Em Quanto Mais Quente Melhor, Marilyn surge lindíssima interpretando a canção I Wanna Be Loved By You, enquanto Jack Lemmon, ao violoncelo, e Tony Curtis, no sax, nos matam de rir integrando a orquestra feminina, disfarçados de mulheres.

Pink – O visual blonde e o deslumbrante vestido rosa pink que Marilyn ostenta no número da canção Diamonds Are a Girl's Best Friends, criação do estilista William Travilla para Os Homens Preferem as Loiras, passou a ser referência e foi imortalizado no cinema.

A Despedida – Ver Marilyn Monroe e Clark Gable juntos em Os Desajustados, naquele que foi o último filme finalizado de ambos, deixa suas cenas diferentes. Destaque para aquela em que Marilyn tenta evitar a captura de cavalos, na qual ambos têm uma interação intensa.

As divas – A cena vale pelo momento único. Em A Malvada, Bette Davis acaba de lançar seus petardos numa festa, quando se depara com um dos convidados, George Sanders, chegando acompanhado da jovem Marilyn. O diálogo é curto, mas reúne duas lendas.

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