A cada dia, torna-se mais comum acreditar que a maternidade e a paternidade podem enlouquecer os pais. Muitos se aventuram nessa jornada, idealizando esse percurso. Uma total negação do quanto é complexa e ambivalente a relação entre pais e filhos.

Na conferência “A decomposição da personalidade psíquica”, Freud apresenta a metáfora do cristal: se atirarmos ao chão um cristal, ele se parte, mas não em pedaços aleatórios, ele se quebra exatamente onde há uma brecha ou uma rachadura.

Isso quer dizer que uma nova aquisição, como o nascimento de um bebê, pode desestabilizar, gravemente, apenas quem já recebe o filho com fragilidade emocional. Por isso é tão importante cuidar das nossas feridas, para tolerar, com saúde mental, as situações difíceis da vida e das relações.

Saúde mental na maternidade é poder vivenciar momentos de cansaço, de aflição, de preocupação, de medos e incertezas confiante de que eles chegam e passam. Mães saudáveis são aquelas que não temem a devoção que o início da vida de um filho exige: elas mergulham nos intensos cuidados, pois sabem que não será eterno; valorizam a própria intuição e convivem com uma certa “loucura sábia”; toleram o medo da morte e permitem que o filho se afaste para crescer.

Uma boa tolerância do adulto cuidador depende do seu sentimento de existir. Essa sensação de realidade e de autonomia mental é fundamental para que a mãe se sinta criativa. Com base no ser, temos indicadores de que estamos vivos e que podemos ter ideais e imaginação suficiente para cuidar e criar.

Para o psicanalista Winnicott, a criatividade é uma manutenção ao longo da vida de algo que pertence à experiência do bebê: a capacidade de criar o mundo. Winnicott postula que nos primeiros meses, o bebê sente que cria o mundo e a mãe!

Quando a mãe do bebê atende suas necessidades básicas de cuidados com o corpo e satisfaz suas expectativas emocionais de proteção e amor, colabora para que o seu bebê possa manter essa importante ilusão. Com isso, ele se sente capaz e vai internalizando um suficiente sentimento de amor próprio.

Com o tempo, o bebê ganha maturidade, se torna mais competente e menos vulnerável. O desenvolvimento corporal e emocional junto com o ir e vir da mãe ajuda o bebê a entender que existem contextos independentes dele. Nessa hora, já seguro de si, o bebê é capaz de apreender a realidade como ela é. Em muitos momentos ele se frustra, principalmente quando percebe que não é dono do mundo e nem o seu centro.

Com o apoio da família e dos cuidadores, a criança supera esses momentos e realiza seu desejo de criar nas brincadeiras, nos estudos e nas relações.

O movimento imaginativo fica a mil. É encantador e, muitas vezes, divertido quando eles compartilham suas teorias e ideais. Pode ser muito produtivo entrar na conversa/brincadeira e percorrer esses momentos onde tudo é possível. Mas um alerta: a criança saudável sabe o que é realidade e fantasia. É importante ela reconhecer essa capacidade no adulto também.

Cuidar de uma criança é realmente muito trabalhoso, mas, se está sendo absurdamente sofrido, não deixe de procurar ajuda, principalmente se você percebe que não está conseguindo poupar as crianças do seu drama. Muitas vezes, somos pais antes de atender as carências da criança que nos habita.

(Maysa Balduino é psicanalista clínica, membro da SBPGoiânia e professora de Teoria Freudiana na residência médica da Pax Instituto de Psiquiatria)