Desde o início da pandemia, o ensino remoto, o home office, os trabalhadores uberizados tendo as plataformas como única possibilidade de sobrevivência foram componentes das relações de trabalho que impuseram a necessidade de adaptação. Tivemos que nos reinventar, atender a demandas de várias ordens, substituir o delicioso e conflitante contato pessoal por máquinas, usando equipamentos e o que mais fosse necessário para dar continuidade à possibilidade de vínculo, mesmo diante da ameaça de total descontinuidade.

Novos espaços geográficos, psíquicos, novas formas de vínculos para se fazer presente mesmo à distância, escuta. Novas rotinas, novas atividades. Aprender, testar, adaptar, reaprender num ciclo exaustivo, interminável, que me consome à exaustão.

Decorrente de todo um processo social, o contraponto dessa relação de dominação-submissão somos nós pessoas, trabalhadores, com história de vida, família, sonhos, sentimentos (esperança dentre eles). Nós trabalhadores que, em nome da sobrevivência, muitas vezes nos vemos obrigadas a correr riscos que seriam desnecessários como usar transporte público sem as mínimas condições, trabalhar sem equipamentos de proteção (jurídicos e ergonômicos), tendo que exercitar a servidão voluntária por simples falta de opção.

Esse contexto se reflete nas relações familiares. Em função da diversidade de condições internas e externas, as pessoas reagem de formas diferentes. O aumento da violência doméstica (principalmente contra mulheres, crianças e adolescentes) somado ao aumento da violência social são fatores que corroboram para a corrosão dos valores e da confiança nas instituições, pois quem deveria cuidar de nós e nos proteger se transforma em algoz. Isso leva a uma desconstrução da esperança, e sabemos que pessoas desesperançadas são mais frágeis, e, portanto, mais manipuláveis.

Talvez como resultado do exercício de minha profissão, ao voltar a mim mesma e perceber como isso me afeta, e de que forma me implico na situação, sinto um aperto no peito, um grito preso na garganta querendo silenciosamente sair. Em forma de sintoma? Melhor em forma de palavra, discurso capaz de transformar, contribuir para mudança.

Nos atendimentos a pacientes e nas discussões com os alunos da Universidade, apesar de nuances diferentes, a sensação de impotência é constante nos relatos. Impotência, uma sensação de que nada do que eu fizer ou deixar de fazer irá mudar a situação, que não depende de mim, um desassossego. Mas, será que não podemos fazer nada mesmo, ou será que podemos aproveitar essa viagem para inventar, criar, fazer coisas de forma diferente, nos fortalecer e sentir melhor dentro de nossa própria pele?

Toda essa situação me faz pensar: até quando vamos compactuar com a desigualdade, injustiça, violência e mantermos a situação, adotando uma postura de sobrevivência adaptativa? Ou será que é hora de nos mobilizarmos para construir uma sociedade mais justa, inclusiva e fraterna?

Toda essa situação de Pandemia e isolamento social, por mais paradoxal que pareça, se constitui uma crise. Para os orientais, uma crise não é apenas um problema, uma ruptura, mas também contém as raízes da mudança, da transformação. Como o grão de semente que, para germinar e virar árvore, tem que romper a casca.

Freud escreveu um texto abordando a transitoriedade, descreve uma conversa com o poeta Rilke, que assombrado diante da finitude se mostrou desesperançoso, e nesse ponto foi Freud quem pontuou que talvez exatamente pelo fato da transitoriedade da vida, em função dessa noção de fim, cada segundo passa a ter uma nuance especial, um convite à fruição do momento único.

(Kátia Barbosa Macêdo é psicanalista, pós-doutora em psicologia e professora titular da PUC Goiás)