Luisa Vechi

A “epidemia diagnóstica”na infância

Será que podemos falar em autismo em casos de crianças que viveram um período de restrição na relação com os semelhantes ?”

Neste ano pós-pandemia, o mês de Abril, mês da conscientização sobre o autismo, trouxe importantes debates e reflexões acerca de um tema que tem sido motivo de alerta e preocupação para todos nós: a “epidemia diagnóstica”.

Dentre os danos causados pela Covid-19, encontramos o aumento do número de crianças bem pequenas que tem chegado em nossos consultórios já diagnosticadas e medicadas. A grande maioria desses diagnósticos são de Transtorno do Espectro Autista e, quase sempre, chegam acompanhados de pais e cuidadores desamparados, com muitas dúvidas e que demonstram pouca esperança com relação ao futuro de seus filhos.

Nesse contexto, é urgente falarmos sobre a patologização da infância, para conscientizar a população acerca do que temos denominado “epidemia diagnóstica”. Precisamos refletir sobre como temos enxergado e lidado com a infância no pós-pandemia, uma vez que muitos desses diagnósticos são realizados a partir de um olhar que tende a buscar patologias e silenciar o sofrimento por meio da medicação.

Sabemos que a infância é um momento crucial para a nossa estruturação enquanto sujeitos e, desse modo, o sofrimento psíquico da criança quando não identificado pode acarretar problemas mais complexos no futuro. Porém, longe de uma detecção precoce de algo que não vai bem com a criança, o que temos observado chegar em nossos consultórios são diagnósticos fechados de forma precipitada, realizados em consultas únicas, com a observação da criança em apenas um contexto e desconsiderando as questões que envolvem sua organização familiar, escolar e a opinião de outros profissionais que a acompanham.

Os efeitos desoladores da pandemia da Covid-19 na infância parecem silenciados em meio aos diagnósticos. Será que podemos falar em autismo em casos de crianças que viveram um período de restrição na relação com os semelhantes (avós, tios, primos, etc.) e que agora recusam o contato com o outro? E aquelas crianças que passam grande parte do tempo diante de telas, estando passivas, sem convívio lúdico, com pouca oportunidade de interação, que apresentam atraso de fala e dificuldade em entrar na linguagem, poderiam ser diagnosticadas com autismo?

Penso que o momento presente requer mais escuta e observação, do que determinações diagnósticas, pois, mais importante do que a patologia em si, é poder favorecer a constituição do sujeito. É preciso que, antes de chegar a um diagnóstico, se esse for o caso, escutemos as nossas crianças, nos coloquemos em uma posição de abertura ao que ela pode nos dar a ver através do seu brincar, dos seus gestos e comportamentos, pois assim, antes de enxergarmos a patologia, avistaremos a potência que há em sua constituição.

(Luisa Vechi é psicanalista, especialista em Problemas do Desenvolvimento na Infância e Adolescência)

A “epidemia diagnóstica”na infância

Será que podemos falar em autismo em casos de crianças que viveram um período de restrição na relação com os semelhantes ?”

Neste ano pós-pandemia, o mês de Abril, mês da conscientização sobre o autismo, trouxe importantes debates e reflexões acerca de um tema que tem sido motivo de alerta e preocupação para todos nós: a “epidemia diagnóstica”.

Dentre os danos causados pela Covid-19, encontramos o aumento do número de crianças bem pequenas que tem chegado em nossos consultórios já diagnosticadas e medicadas. A grande maioria desses diagnósticos são de Transtorno do Espectro Autista e, quase sempre, chegam acompanhados de pais e cuidadores desamparados, com muitas dúvidas e que demonstram pouca esperança com relação ao futuro de seus filhos.

Nesse contexto, é urgente falarmos sobre a patologização da infância, para conscientizar a população acerca do que temos denominado “epidemia diagnóstica”. Precisamos refletir sobre como temos enxergado e lidado com a infância no pós-pandemia, uma vez que muitos desses diagnósticos são realizados a partir de um olhar que tende a buscar patologias e silenciar o sofrimento por meio da medicação.

Sabemos que a infância é um momento crucial para a nossa estruturação enquanto sujeitos e, desse modo, o sofrimento psíquico da criança quando não identificado pode acarretar problemas mais complexos no futuro. Porém, longe de uma detecção precoce de algo que não vai bem com a criança, o que temos observado chegar em nossos consultórios são diagnósticos fechados de forma precipitada, realizados em consultas únicas, com a observação da criança em apenas um contexto e desconsiderando as questões que envolvem sua organização familiar, escolar e a opinião de outros profissionais que a acompanham.

Os efeitos desoladores da pandemia da Covid-19 na infância parecem silenciados em meio aos diagnósticos. Será que podemos falar em autismo em casos de crianças que viveram um período de restrição na relação com os semelhantes (avós, tios, primos, etc.) e que agora recusam o contato com o outro? E aquelas crianças que passam grande parte do tempo diante de telas, estando passivas, sem convívio lúdico, com pouca oportunidade de interação, que apresentam atraso de fala e dificuldade em entrar na linguagem, poderiam ser diagnosticadas com autismo?

Penso que o momento presente requer mais escuta e observação, do que determinações diagnósticas, pois, mais importante do que a patologia em si, é poder favorecer a constituição do sujeito. É preciso que, antes de chegar a um diagnóstico, se esse for o caso, escutemos as nossas crianças, nos coloquemos em uma posição de abertura ao que ela pode nos dar a ver através do seu brincar, dos seus gestos e comportamentos, pois assim, antes de enxergarmos a patologia, avistaremos a potência que há em sua constituição.

(Luisa Vechi é psicanalista, especialista em Problemas do Desenvolvimento na Infância e Adolescência)

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