Em uma reflexão envolvendo os impactos da pandemia sobre a adolescência, partiremos do pressuposto de adolescência como uma construção social diferente da puberdade, período natural do desenvolvimento marcado por mudanças sobretudo no corpo, mas que, em linhas gerais, aconteçam concomitantemente.

Como construção social, a adolescência é um período de passagem para a vida adulta, possibilitada pela definição de uma identidade e pela formação técnica necessária ao ingresso no mundo do trabalho. Aqui cabe uma questão: de qual adolescência estamos falando? E quanto às crianças que não puderam passar por esse período sabático de passagem, cumprindo os rituais de preparação, e já foram incluídas diretamente no mundo do trabalho? Esclarecemos que as colocações aqui apresentadas se destinam a uma camada privilegiada da sociedade brasileira.

Partiremos nossa análise de um elemento comum que une puberdade e adolescência: as mudanças do corpo. O afastamento social impediu que o adolescente enfrentasse junto a seus pares o desconforto e o prazer vivenciados pelas mudanças observadas no seu corpo, processos psíquicos necessários para a constituição de uma nova imagem corporal, base para uma sedimentação da identidade.

Com quem me pareço? Como posso usar o corpo para demonstrar meu contentamento ou minha indignação? Qual o potencial de comunicação do meu corpo? O mundo virtual, embora cumprisse seu propósito de manter a interligação entre sujeitos falantes, os transformou em “corpos cabeça”.

A impossibilidade de usar a potencialidade comunicativa do corpo teve impactos, sobretudo nos processos escolares. A corporalidade permitida pelos encontros presenciais, responsável pela linguagem não verbal, se reduziu drasticamente. O uso de máscaras também reduziu a captação de indicadores da comunicação não verbal.

Do ponto de vista da saúde mental é possível dizer que os “corpos cabeça” presentes nas aulas virtuais e os corpos mascarados dos encontros presenciais possíveis dificultam a confirmação perceptiva que alimenta o adolescente acerca de sua autoimagem, podendo ser um obstáculo para uma relação com o mundo saudável.

Uma outra questão importante se refere aos objetivos de mais longo prazo, sobretudo aos adolescentes que iniciaram o ensino médio em tempos de pandemia. A impossibilidade de estabelecer planos sobre as tarefas cotidianas repercutiram nos adolescentes que se encontravam em um momento de decisão sobre o que fazer da vida, sobre onde estudariam, se sobreviveriam fora de casa, etc.

O desempenho escolar não poderia ficar imune à angústia frente ao inesperado. Nesse contexto, as redes sociais, se por um lado colaboraram para minimizar a sensação de isolamento, por outro criaram a falsa ideia de que a vida humana seguia imune ao fenômeno social, como uma bolha a flutuar pelo espaço.

Infelizmente, temos constatado na argumentação científica da Psicologia/ Neuropsicologia, no Brasil, um avanço de diagnósticos que escravizam os sujeitos falantes. Os destituem da possibilidade de enfrentar os momentos disruptivos que, em geral, deveriam mobilizar forças motrizes de mudança e transformação.

O momento histórico vivido pela sociedade civil, e sobretudo o adolescente, poderia ter lhe servido de material concreto para a elaboração de um novo pacto social que permitisse aos sujeitos falantes condições favoráveis ao uso de suas próprias habilidades para recuperar-se do estresse rotineiro, ser produtivo e contribuir com a sua comunidade.

(Valéria Barros é neuropsicóloga e mestre em Psicologia)