Antes de qualquer coisa, vamos prometer manter essa nossa conversa aqui em segredo que é para não decepcionar os devotos dos santos. É que, na real, as festas juninas, a exemplo do que acontece com a Páscoa e até o Natal, têm muito de pagã na sua origem. O hábito de celebrar as colheitas no verão europeu (junho), agradecendo às divindades pela fartura, veio dos romanos e dos gregos, com direito a fogueira e tudo mais. Com o predomínio do cristianismo, veio o contra-colonialismo, e os costumes dos pagãos dominados foram parcialmente incorporados, agora, aos nossos santos. É por isso que não comemoramos o dia de São José ou de São Francisco com festas janeirinas, setembrinas, etc.

No Brasil, as festas juninas chegaram por meio dos portugueses e é natural que se tornassem típicas no nosso País, de dimensões continentais e povo majoritariamente católico. Dos santos, o mais badalado é São João. A fama é tanta que no Nordeste o nome da festa é “Festa de São João” e dura o mês inteiro. Há grandes festas de São João em Campina Grande (PB) e em Caruaru (PE), mas em todo o Nordeste a festança chega a ser tão animada quanto o carnaval! É de São João, também, a origem lendária de alguns costumes tradicionais. A despeito dos antigos pagãos já assim comemorarem, a versão cristã conta que Santa Isabel acendeu uma fogueira para que Maria, de onde estivesse, pudesse saber do nascimento de seu filho. E Isabel, no dia 24 de junho, botou fogo na lenha e anunciou, para Maria e para o mundo, que João Batista havia nascido. Zacarias, seu marido, emocionado, perdeu a voz, só a recuperando quando o perguntaram como se chamaria a criança. Em um estrondo, gritou: “João!” – e os gritos e aplausos que sucederam originaram os fogos e bombinhas de hoje. Tem gente que até propõe que a festa seja joanina e não junina...

As guloseimas ganharam força também no interior, onde os costumes tendem a se arraigar e a fé a se manter em alta. Como nosso povo, os quitutes juninos são, também, um mosaico, misturando origens (indígenas, portuguesas, orientais e africanas) e razões diversas. Da cachaça, nossa bebida mais genuína e popular, veio o quentão, adicionando-se as especiarias asiáticas reverenciadas pelos portugueses: o gengibre, a canela, o cravo. O milho, americano do Alasca à Patagônia, aparece em várias versões. Na canjica – munguzá no Nordeste –, ele surge do tipo branco, cozido no leite, com o baiano coco e de novo a canela. Na pipoca, ele é de uma variedade seca, que com o calor faz explodir seu interior e vira alimento. Como mais o conhecemos, da espiga verde, ele é ralado e vira curau e a nossa pamonha (goiana!). O pé-de-moleque, da mãe África, é doce barato, fácil de fazer, com amendoim e rapadura ou melado. A cocada também é de lá, do abundante coco, da Bahia, símbolo máximo do sincretismo religioso. O vinho quente veio depois, assim como que para lembrar das raízes europeias.

Em suma, no arraiá dos nossos amigos caipiras, nada combina com nada. Também, pudera: o que esperar de uma festa ao mesmo tempo pagã e cristã e que calhou de se eternizar no Brasil, país da religião, da miscigenação e da bagunça?