Em 22 de fevereiro, um dia após soprar as velinhas, Elizeu Augusto de Freitas Junior ganhou o presente dos seus recém-completados 19 anos: a notícia que havia sido aprovado em primeiro lugar em Medicina na Universidade Federal de Jataí (UFJ). Hoje, ele mora na cidade de Candeias do Jamari, em Rondônia, mas já está se preparando para desembarcar em Goiás no meio do ano, acompanhado dos pais, para dar início à vida acadêmica.Elizeu recebeu o diagnóstico de transtorno do espectro autista (TEA) aos 12 anos e precisou da ajuda do irmão mais velho, Pedro Passos, para superar as dificuldades que tinha para ler e escrever. “Aqui, onde moro, é carente de profissionais para fazer esse acompanhamento”, diz sobre Candeias do Jamari, município de pouco mais de 27 mil habitantes. Ele conta que morou na cidade de Itumbiara com a família entre os anos 2017 e 2019, período em que conseguiu ter suporte na escola estadual que frequentou. “Em Goiás, tive professora de apoio por um tempo. Mas aqui, não”.O jovem revela que a rotina de estudos para a prova do Enem era intensa, chegando a oito horas diárias. “Estudava praticamente todo dia e ainda fazia questões de revisão e simulado aos fins de semana. A monitora de redação também me ajudou bastante nesse período”, conta. Mesmo interessado em outras áreas, como o desenho, a decisão de cursar medicina veio durante o terceiro ano do ensino médio. “Fui me aprofundando em química e biologia e tive esse interesse na área”, diz.Depois da sua experiência de atendimento com um neurologista, profissional que o diagnosticou com TEA, Elizeu já tem até especialização em mente. “Inspirado nele, quero Neurologia. É bom que vou conseguir ajudar outras pessoas dentro do espectro, como eu”, comenta.MultidisciplinarEm razão do mês de conscientização sobre o autismo, o projeto PsiQUÊ? discute nesta semana o acesso ao acompanhamento multiprofissional de pessoas com transtorno do espectro autista (TEA). O diagnóstico e as intervenções precoces buscam a detecção de dificuldades e o máximo do desenvolvimento de habilidades de pessoas dentro do espectro, o que pode ser decisivo para o futuro desses indivíduos.A partir do diagnóstico e da avaliação de um médico, geralmente neurologista ou psiquiatra, o tratamento é prescrito de acordo com as necessidades de cada um. Via de regra, são indicadas para as crianças autistas especialidades como fonoaudiologia e terapias, como aponta a advogada e professora universitária Tatiana Takeda. Presidente da Comissão dos Direitos da Pessoa com Deficiência da OAB Goiás, ela é membro da Comissão de Inclusão Social e Defesa da Pessoa com Deficiência do IBDFAM-GO e mãe de Theo Luiz, de 10 anos, diagnosticado com TEA.“Essas áreas vão tratar questões como comunicação, cognição e funcionalidade da pessoa. E elas precisam ser trabalhadas principalmente na primeira janela de desenvolvimento, nos primeiros 3 anos de vida, porque o diagnóstico e a intervenção precoces trazem mais chances dessa criança chegar na fase adulta com a maior independência e autonomia possíveis”, comenta.Tatiana Takeda chama a atenção para a desinformação presente, inclusive, dentro das casas de pessoas autistas, o que pode prejudicar esse trabalho. “O preconceito por parte da família é um grande problema que enfrentamos hoje. E esse preconceito vem acompanhado de discriminação e capacitismo”, aponta. “Estamos falando de um público alvo de inclusão social e, para existir inclusão, é necessário algo que chamo de tripé da inclusão social: família, escola e terapeutas. É muito importante as famílias se envolverem nesse processo e entenderem quais são os direitos da criança, adolescente e adulto autista”, diz.É o que defende a psicóloga, psicanalista e especialista em estimulação precoce, Marcella Haick Mallard. “Tem um ditado que diz que para se criar uma criança é preciso de toda uma aldeia. Uma equipe de profissionais que dê apoio é importante, mas a colaboração e participação da família também é fundamental”, comenta.“No caso de uma criança muito pequena, então, o fator mais estimulante é não ser indiferente a ela. Por isso, é preciso convocar os pais e legitimar a participação deles nesse processo”, destaca.Intervenção psicopedagógicaA psicopedagogia é a área que atua na identificação, diagnóstico e tratamento de problemas de aprendizagem, como na questão da leitura e da escrita, caso de Elizeu Augusto de Freitas Junior. “As crianças dentro do espectro autista normalmente têm uma dificuldade maior de entrar em contato com essas questões, seja de ordem emocional, psíquica ou mesmo cognitiva. E, com isso, não estou querendo dizer um atraso cognitivo, mas uma resistência, um mecanismo de defesa frente a objetos novos”, explica a psicopedagoga Denise Carneiro. O acompanhamento pode ser iniciado ainda bebê e seguir até a vida adulta. Cada caso deve ser avaliado individualmente, para se detectar as dificuldades e habilidades a serem trabalhadas.Programa TEAtivoGoiânia foi a cidade escolhida para o projeto-piloto Programa TEAtivo, que irá oferecer atividades físicas para crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (TEA). A iniciativa é do governo federal e será executada pela Secretaria Municipal dos Esportes em parceria com a Secretaria Especial do Esporte do Ministério da Cidadania e Secretaria Nacional do Paradesporto. A capital receberá, junto ao Rio de Janeiro, os dois primeiros núcleos do projeto, lançado no dia 1º de abril. A princípio serão atendidas 200 pessoas, com idade entre 5 a 18 anos, em 400 atendimentos semanais. O objetivo é estimular a interação social por meio de atividades corporais sistematizadas, pensadas no desenvolvimento individual de cada participante. O projeto está em fase de implantação.