Em 2015, a psicóloga e professora Virgínia Suassuna perdeu o marido, Antônio Martins Costa Neto, de forma repentina e inesperada. Ele estava jogando futebol com os amigos, como sempre fazia, e morreu após sofrer um infarto fulminante. “Me ligaram porque ele estava passando mal. Cheguei no campo e ele já estava morto”, conta. A partir daí, ela foi vítima de uma série de situações desrespeitosas e violentas, de quem a enxergava diante daquela situação como a Virgínia psicóloga, e não um indivíduo em sofrimento por perder alguém importante. Quando questionada sobre como estava se sentindo dias ou semanas depois da morte do marido, ela respondia com sinceridade: estou muito mal. “E eu ouvia de volta: você é psicóloga, já deveria ter superado”, relata. “Ser cobrada como psicóloga naquele momento me despersonalizou, porque eu não podia ser eu, não podia chorar. Acham que chorar faz mal, mas eu queria sentir a dor, e isso tem que ser respeitado”, diz. Virgínia e Antônio ficaram casados por 40 anos. Tiveram três filhos e, até aquele momento, tinham um netinho. “Na nossa sociedade é exigida uma uniformidade de reações, e aí as pessoas perdem a individualidade. Eu nunca podia estar como eu estava no momento”, conta. “Quando voltei a dar aula, acabada, falavam ‘nossa, como você está abatida’. Quando voltei a fazer atividade física e a aparecer maquiada, questionavam ‘mas como você conseguiu ficar bem assim?’”, relata. “Sentia os olhares fulminantes de pena. Sentia que me visitavam por curiosidade, e não por preocupação. O olhar e a fala do outro destroem a pessoa que está vivendo o luto”, diz.Nem Virgínia, nem ninguém da família ou dos amigos esperava que Antônio fosse morrer naquele dia. “Uma morte inesperada como foi a do meu marido é diferente de, por exemplo, se ele estivesse há um tempo no hospital com uma doença terminal. Existe todo o contexto, o tempo de convivência, o significado que a pessoa tem para a elaboração do luto”, aponta. Ao encontrá-lo no campo, ela entrou em desespero. “Eu deitei em cima do corpo dele e tentava reanimá-lo. Fiquei exausta de tanto gritar, achavam que eu estava surtando”, lembra. Diante do impacto da morte, tentaram acalmá-la com medicamentos. Desde esse primeiro momento, Virgínia passou a se sentir desrespeitada. “Quem está de fora quer ajudar e acaba atrapalhando. As pessoas querem dar remédios nessa hora para tirar a dor, mas eu queria sentir. Só aceitei a água que me ofereciam quando eu mesma abri a garrafa”, diz. Quando a deixaram sozinha, ela conseguiu fazer sua despedida de forma individual. “Eu caí de exaustão ao lado dele e olhei para o céu. Foi quando consegui entrar em contato com a espiritualidade e agradecer a presença dele nesses 40 anos, já que os outros não estavam mais presentes na minha mente, me enchendo o saco”, desabafa.Hoje, quase sete anos depois da morte do marido, Virgínia segue homenageando e relembrando momentos especiais que passou ao lado dele. “A vivência do luto não segue o tempo cronológico. Tem dias que sinto como se ele tivesse morrido ontem. Em outros, que ele morreu há 30 anos. E eu me permito sentir o passado e o presente, mas as pessoas não entendem”, diz. “Me questionaram esses dias por eu ainda falar muito dele. Me dizer como eu devo fazer e sentir é um crime, ninguém deve nada. Você pode colocar o luto na sua frente, te impedindo de caminhar. Pode colocar atrás, negando a dor. Eu escolhi colocar ao meu lado e caminhar junto com ele”, finaliza.As cobranças da maneira como Virgínia deveria reagir diante da morte do marido e de como o processo do seu luto deveria acontecer mostra que, quando o assunto é saúde mental, grande parte da sociedade ainda está despreparada para lidar com as formas de expressão emocional do outro. A Organização Mundial da Saúde (OMS) diz que saúde mental é um estado de bem-estar relacionado à forma como a pessoa reage às exigências, desafios e mudanças de vida, com harmonia entre o físico, o psíquico e o social. Em reportagem do projeto PsiQUÊ? publicada em 12 de março, profissionais reiteraram: saúde mental não é o oposto de transtorno mental e, assim como a saúde física, também sofre alterações e precisa de manutenção constante.