“Vivemos hoje em um mundo onde o que está em jogo é a produtividade a qualquer custo. Não interessa a situação, as pessoas querem ver resultados - mas a gente sabe que as coisas não funcionam dessa forma”, aponta a psicóloga e psicanalista Luciane Gifford Carneiro. As cobranças para corresponder às expectativas sem levar em conta as individualidade, o ritmo e o jeito de ser de cada um é massacrante, aponta a especialista. “Vejo, por exemplo, como os adolescentes são cobrados para ter sucesso, como se eles fossem extensões dos pais. Aceitar essas diferenças é fundamental para um bom desenvolvimento psíquico, mas o que vemos hoje é uma tendência de colocar as pessoas em formas, como se todos tivessem que ser iguais”.

Diante desse modo de viver, o processo do luto tende a ser desrespeitado. “A saúde mental é algo muito delicado e a tendência é que a pessoa seja medicada. Pessoas enlutadas estão sendo medicadas e o luto tem que ser vivido, tem que ser elaborado, não tem outra forma. E o que buscam é anestesiar e não tocar mais no assunto. Não dá nem tempo de elaborar, porque as empresas chamam para voltar a produzir e a essência do ser humano vai ficando de lado. Mas cada um vive o luto de uma forma e isso é importante respeitar”, aponta.

Além da enorme quantidade de mortes em decorrência da Covid-19, o período pandêmico trouxe à tona ainda outras questões que afetaram a saúde mental da população. As mudanças na rotina, no funcionamento da própria casa e nas relações familiares trazidas pelo momento jogaram luz para a necessidade de olhar para dentro, como observa a Luciane. “Foi como se houvesse um alto-falante dentro da gente. Questões que já estavam presentes passaram a ser vistas”, diz.

Dentro desse contexto, vieram também as perdas. “Principalmente naquele momento inicial da pandemia, perdemos a liberdade de ir e vir, de abraçar as pessoas, de ficar perto. Alguns perderam empregos, outros perderam pessoas queridas”, comenta. “Isso tudo é muito impactante. Mas acho importante pensar como cada família viveu isso de uma forma e percebeu as questões existentes ali. Algumas que estavam no automático se reinventaram, perceberam que havia distância entre o casal, passaram a perceber mais os filhos. Outras, pelo contrário: tiveram mais discussões, casamentos terminaram”.

Diante de tantas alterações, veio também o sofrimento. “Perdemos com isso tudo também a nossa onipotência: a gente achava que estava tudo sob controle e, de repente, veio um vírus invisível que tomou conta do mundo. E, com isso, ficamos enlutados. Algumas pessoas se desesperaram, outras se deprimiram”, comenta. Ela observa que entre as faixas etárias que mais sofreram nesse período está a dos adolescentes. “Foi perdido por dois anos o momento do grupo, da rua, do estar fora. E estamos tendo repercussão disso hoje no consultório”, comenta.

Apesar de ainda haver resistência em se abordar os problemas e dores relacionados à saúde mental, Luciane observa que houve um avanço no sentido de tratamentos e discussões. “Está havendo uma aproximação maior dessa possibilidade de aceitar, pensar e reconhecer as dores psíquicas. Por mais que ainda exista muito preconceito e dificuldade das pessoas de entrar em contato com elas próprias e com a dor do outro, tem também o fato de os recursos estarem aumentando, de estarmos conversando mais sobre isso, tendo mais acesso a essas questões”, diz.

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