Se engana quem pensa que estar bem, mentalmente, seja sinônimo de estar feliz o tempo todo. Em meio a uma pandemia e ao recente conflito entre Ucrânia e Rússia, é natural que algumas pessoas tenham sentimentos como angústia. “Nesse cenário, surgem tentativas de estabelecer novas formas que as pessoas dizem ser as corretas do que seria o ‘novo normal’”, disse em entrevista ao POPULAR o médico psiquiatra e psicanalista Jorge Forbes.VEJA TAMBÉM• Projeto do GJC te convida a falar de saúde mental de forma descomplicada• “Todo bom livro tem efeito terapêutico”, diz Dante GallianReferência quando o assunto é mente humana, o especialista se destacou ainda mais durante a quarentena justamente por contextualizar a sensação das pessoas diante do desconhecido. Para Forbes, essas tentativas de estabelecer o “novo normal” seriam uma maneira de regrar, disciplinar e educar o desejo humano.“O isolamento causado pelo tsunami tecnológico fez com que a gente perdesse nossas fórmulas de ser. Essa conturbação gera uma mudança muito grande na forma de estabelecermos nossa identidade e de sabermos quem somos”, observa.Forbes chama a atenção no último texto publicado em suas redes sociais, sob o título Chega de Tanta Felicidade. “Estamos lotados de felicidade, melhor dito, promessas de felicidade, de obrigações de felicidade”, diz um trecho. Ao POPULAR, o psiquiatra explicou a afirmação polêmica. “Foi por essas tentativas de regrar o desejo humano estabelecendo fórmulas prontas de felicidade que eu disse ‘basta de tanta felicidade’. Essas promessas dão uma sensação imediata que a médio e longo prazo são muito ruins”, comenta.O que é?Falar sobre saúde mental é falar sobre cuidado. Apesar de ter ganhado mais atenção nos últimos anos, o tema ainda é cercado de estigma e preconceito, afastando grande parte da população dos debates, ações e da procura por auxílio de profissionais gabaritados. Antes de mais nada, é preciso voltar algumas casas e explicar o que é, afinal, saúde mental e porque é um assunto que diz respeito a todos - e porque não significa estar feliz o tempo todo.“O conceito vai muito além das doenças e transtornos mentais. Não está ligado a ausência de doenças ou a um estado permanente de saúde”, comenta a psicanalista Miriam Bueno. “Saúde mental é uma parte integrante de um todo, ao estado completo de bem-estar físico, mental e social”, explica.A Organização Mundial da Saúde (OMS) diz que saúde mental é um estado de bem-estar relacionado à forma como a pessoa reage às exigências, desafios e mudanças de vida, com harmonia entre o físico, o psíquico e o social. Como a profissional reitera, saúde mental não é o oposto de transtorno mental e, assim como a saúde física, sofre alterações e precisa de manutenção constante.“Não quer dizer que a pessoa que tem saúde mental é uma fortaleza. Também não se trata de uma fraqueza permanente. É importante pensar que ela é variável e que os mecanismos dependem de pessoa para pessoa”, diz Miriam.Entre os fatores que podem impactar a saúde mental do indivíduo estão, sim, as questões biológicas, mas muitas outras. “Hoje, pelo modelo muito biológico no campo da saúde, muitos acham que ela está ligada somente a esses aspectos e, por isso, somente o tratamento médico, medicamentoso, será suficiente para recuperá-la. Mas existem fatores sociais a serem avaliados, as relações interpessoais, que são importantes nesse processo, trabalho, aspectos econômicos”, aponta.Estou bem?Alguns alertas vêm sendo acesos durante a pandemia de Covid-19. Um levantamento do Datafolha mostrou que 44% de todos os entrevistados nas cinco macrorregiões do país declararam problemas emocionais nesse período; desses, jovens entre 16 e 24 anos e mulheres foram os que mais tiveram a saúde mental afetada. Já um resumo científico divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) no início do mês de março faz o alerta: a prevalência global de ansiedade e depressão aumentou em 25%.“Quando a gente pensa em saúde mental em uma pandemia, pensamos em um volume de angústia diante de incertezas muito grande. Mas quando olho para o lado, vejo pessoas que não estão com essa angústia. Existe certo ou errado? Quem pode falar sobre isso?”, comenta a psicanalista Larissa Câmara. A falta de identificação com o outro está entre os motivos de alguns indivíduos terem dificuldade de compartilhar o que estão passando. “Isso porque, de certa forma, é um assunto que expõe a nossa dor. Existem vários caminhos para lidar com essa dor, e uma delas é não reconhecer a existência dela”, diz. “Quando a gente partilha histórias, estamos contando para o nosso vizinho que ele não está sozinho, nenhum homem é uma ilha. Que aquilo que ele está sentindo é mais comum do que ele imagina e que, às vezes, a solução não está tão longe, mas ela só é possível de ser encaminhada, trilhada e inventada se esse assunto deixar de ser um tabu”, aponta.Desmistificar os preconceitos a respeito da saúde mental passa, também, pelos tabus quanto aos diagnósticos e a maneira como o assunto será tratado com o paciente. “É preciso muito cuidado com o estigma ao tratar sobre isso. Quando a gente faz um diagnóstico, a nossa posição humanística é de limitar a pessoa a ele”, comenta. “Precisamos comunicar que um diagnóstico não define o sujeito - ele pode ser parte do sujeito, mas não é o sujeito como um todo. E, muitas vezes, ele é necessário buscando melhorar a qualidade de vida da pessoa”, diz.Como me afeta?Entender como a saúde mental em desequilíbrio pode afetar uma pessoa pode ajudar na hora de reconhecer que algo pode não estar indo bem e o momento de procurar ajuda profissional. “Uma maneira de pensar nos efeitos é o nível de incapacidade que um transtorno mental pode causar na vida de determinada pessoa. Em certa medida, todos apresentamos sintomas que podem ser menos ou mais patológicos. O que determina que a saúde já está comprometida são os sintomas persistentes, que levam a um comprometimento no cotidiano”, aponta a psicanalista Miriam Bueno. “É um leque muito extenso e somente um diagnóstico de um profissional da área irá determinar se já está instalado um transtorno. Temos o quadro da depressão, tão falada e comum atualmente, mas também sintomas como a dificuldade de corresponder ao que é solicitado, de cumprir demandas e prazos; uma angústia muito grande, uma ansiedade que vai interferir no estar no mundo”, comenta. “Essa pessoa não consegue estar bem no trabalho ou estudos, não corresponde nas relações interpessoais, apresenta comportamentos não habituais, o que gera conflitos nos relacionamentos”, continua.Esses sinais podem se intensificar e levar a quadros que precisam de um alerta maior. “Existem riscos de complicações maiores, como sintomas fóbico-ansiosos, como a síndrome do pânico, por exemplo. Temos o agravamento do uso de álcool e outras substâncias, transtornos como o estresse pós-traumático por conta da própria pandemia em pessoas que perderam pessoas queridas ou ficaram doentes”, exemplifica. “Partindo de um referencial da psicanálise, a gente entende que nós, humanos, estamos sempre em tentativa de nos organizar em relação àquilo que seriam nossas necessidades e demandas e aquilo que nos é imposto e solicitado”, comenta a psicanalista Márcia Marques Lopes de Oliveira. “Hoje em dia, temos alguns pontos que precisam ser levantados: o primeiro é que a saúde mental não se trata de um projeto individual. A nossa cultura tende a colocar no indivíduo a carga da responsabilidade pela sua condição, no sentido de proteger patologias que justifiquem qualquer tipo de sofrimento”, diz.Ela usa a condição de luto no contexto da pandemia como exemplo. “Se esse sujeito não está performando no máximo de seu desempenho após duas semanas, entende-se que ele está deprimido. Esse funcionamento da nossa sociedade, que tende a nomear como patologia algo que é da ordem do sofrimento humano até mesmo para desqualificar o sofrimento. Passa, então, a ser uma doença que precisa ser tratada para que você volte ao máximo da sua capacidade de desempenho”, explica.-Imagem (1.2418242)-Imagem (1.2418241)-Imagem (1.2418240)