“Acho que a música popular brasileira hoje é a música sertaneja e está muito bem representada por grandes artistas, grandes duplas”, declarou o cantor Gusttavo Lima em entrevista antes de subir ao palco na noite de sábado, no estacionamento do Estádio Serra Dourada, em Goiânia. E ele justificou: “Música popular brasileira pra mim é sertanejo, que é a música que toca de Manaus a Porto Alegre, de Fortaleza a Cuiabá, em todos os cantos”. Se o objetivo do cantor era mesmo levantar uma polêmica, o fato é que conseguiu entre figuras da cidade.Isso porque a declaração pública do sertanejo foi feita um dia após o Conselho Municipal do Patrimônio Histórico Cultural de Goiânia aprovar que o movimento da MPB nos bares de Goiânia seja declarado bem do patrimônio imaterial da capital. A proposta de tombamento foi feita pelo documentarista Marcos Gomes, que emitiu nota em nome dos integrantes do movimento. “Um dia após o Conselho do Patrimônio Histórico e Cultural tomar uma decisão inédita, (...) ele ocupa a cena goianiense e tenta desmerecer e desqualificar esse reconhecimento do poder público, celebrado com euforia por todos os artistas, inclusive de outros estilos”, diz um trecho.“Esse senhor certamente desconhece vultos como Chiquinha Gonzaga, Noel Rosa, Ernesto Nazaré, Almirante, Braguinha, Dorival Caymmi (e filhos), Anísio Silva, Ângela Maria, Cauby Peixoto e centenas de outros históricos, base que nos deu a bossa nova, o choro e a MPB, gêneros musicais praticados à profusão nos tempos do nosso - agora - patrimônio imaterial de Goiânia”, declarou o escritor e jornalista Luiz de Aquino em resposta ao cantor.Já o cantor sertanejo Aurélio, da dupla Márcio Leão e Aurélio, defende o posicionamento do Embaixador. "Eu concordo muito com a declaração do Gusttavo Lima porque a música sertaneja domina o cenário nacional há muitos anos. É uma múscia que sempre falou a linguagem das pessoas, o que as pessoas estão vivendo, e por isso ela se tornou tão popular."Para ele, não houve a intenção por parte de Gusttavo de criar polêmica ou desmerecer outros estilos. "Ele apenas expôs o fato que o sertanejo se tornou a música popular. Inclusive vários artistas sertanejos sempre fizeram participações e chamaram artistas de outros estilos para gravar com ele, da MPB ao pop rock, assim como regravaram outros estilos. Sempre quiseram trazer os outros artistas para perto." Assunto polêmico ou não, uma coisa é certa: a dicotomia sertanejo X MPB vem dando pano pra manga há muito tempo. Enquanto representantes do primeiro apontam uma visão elitista e um preciosismo na hora de comentar sobre o gênero, há dentro do segundo cenário quem não reconheça qualidade musical na música sertaneja, reiterando uma finalidade meramente mercadológica das produções.A cantora Elba Ramalho, por exemplo, demonstrou incômodo em 2017 com o aumento de cantores sertanejos integrando as festas de São João, opinião que foi rebatida por Marília Mendonça. Voltando para a discussão atual, o cantor e compositor goiano Darwinson de Melo Rocha emitiu nota em resposta à fala de Gusttavo Lima apontando que o que ele não reconhece como música popular hoje em dia, foi perdendo força por não aderir ao modelo de marketing imposto pelas grandes gravadoras. “O seu galho é fazer estrondoso sucesso para a indústria cultural, fazendo músicas menos complicadas, popularescas na visão dos estudiosos, populares na sua visão”, diz um trecho.Mas como em quase toda polarização, existem aqueles que fogem à disputa de lados e mostram a convergência entre os estilos musicais. Chico Buarque, um dos maiores nomes da MPB, tem música gravada com a dupla Zezé Di Camargo & Luciano. A trilha do filme Dois Filhos de Francisco, que conta a trajetória da dupla sertaneja goiana, é assinada por Caetano Veloso, que já declarou em entrevista que “funk carioca e sertanejo universitário são a nova tropicália”. No seu mais recente trabalho, o álbum Meu Coco, Caetano faz referência às cantoras e duplas sertanejas Marília Mendonça, Maiara & Maraísa e Simone & Simaria.A discussão sobre o que a alcunha de “música popular brasileira” abrange vai muito além do sertanejo, alcançando gêneros como forró, funk, rap e suas vertentes. A sigla MPB designa o movimento musical surgido na década de 1960, com características de engajamento por parte de artistas no âmbito cultural e político. “Toda palavra cantada é música popular. Esse termo, MPB, poderia caber a toda música brasileira. Ficou atrelado ao Chico, Caetano, Vanessa da Mata, mas não cabe mais”, comenta o professor da Universidade Federal de Goiás Lisandro Nogueira.Para Lisandro, a declaração do cantor foi equivocada. “Não existe a verdadeira música popular. Por aqui, no Brasil, há mistura em tudo. A bossa nova e o tropicalismo foram feitos de muita mistura. O funk e o rap, idem. A Anitta acabou de gravar uma música que mistura funk e bossa nova”, comenta. “Acredito que o Gusttavo Lima, em um momento de arrogância e prepotência, quis dizer: ‘A única música relevante é a que eu faço’. Parece um ressentimento, acredito que tenha até um caráter político por trás”, diz.Ao tratar de números, há alguns anos que o topo das paradas é dominado pelo gênero cantado (e disseminado) por Gusttavo Lima. O ano de 2020 foi fechado com o sertanejo ocupando as cinco primeiras posições entre os artistas mais ouvidos da plataforma de streaming Spotify, por exemplo. Uma pesquisa da Crowley e Kantar Ibope apontou que o gênero liderou, ainda, as execuções em rádios no mesmo ano. Uma espiada nas músicas mais ouvidas no Brasil nesta semana aponta a mescla entre sertanejo, funk, rap e o piseiro, um dos grandes destaques musicais dos últimos dois anos.Entre esses sucessos comerciais há, inclusive, muita mistura entre gêneros. O cantor sertanejo e o de pisadinha participam de músicas dos MC de funk e vice-versa. Promover a mistura entre ritmos considerados “populares” dentro da indústria da música, hoje em dia, é um trunfo, como aponta o programa Diálogos da USP, que integra o jornal da instituição, em que participaram os pesquisadores Luiz Tatit e Alberto Ikeda. Ambos concordam com Lisandro ao dizer: não há como definir, hoje, o que seria “a MPB”.Ikeda, estudioso referência em música popular brasileira, comenta que, na época em que surgiu, o termo era usado para distinguir o gênero musical do que era considerado comercial da época - incluindo até mesmo o rock. “Do ponto de vista conceitual, é difícil dizer o que seria uma MPB. Com o tempo, esse termo já vinha se desgastando. Hoje, quando o ouvimos, praticamente tudo o que se faz em língua portuguesa no Brasil acaba entrando como música popular brasileira”, disse.Gyovana Carneiro, professora da Escola de Música e Artes Cênicas (Emac) da UFG, segue a mesma linha de raciocínio. “A música popular brasileira é uma música rica e versátil, que abarca muito mais do que só uma vertente. Sempre que escuto referências sobre Goiânia como a capital da música sertaneja, discordo: é a capital da diversidade", declara. “Embora haja muitos cantores sertanejos oriundos do Estado de Goiás, aqui também é a capital da MPB, do rock, do samba, do choro, da música de concerto e muito mais”, diz.-Imagem (Image_1.2342843)-Imagem (Image_1.2342844)