“Se eu tivesse tido apoio desde o início, lá em 2013, a história seria outra. Eu não teria chegado ao meu limite como aconteceu em 2017”, diz a psicopedagoga e confeiteira Vívian Cardozo Mesquita, de 41 anos. O período a que ela se refere foi de sua atuação como pedagoga com extensas jornadas de trabalho, sobrecarga de funções, exaustão e assédio moral. “Me sentia muito injustiçada e sobrecarregada, não conseguia concluir meus trabalhos direito”, lembra.

Em uma das creches que trabalhou, pensava que havia encontrado sua missão de vida. “Mas era tudo muito cansativo. Tinha hora para entrar, mas não para sair”, conta. Em outra experiência, lidava diretamente com crianças vítimas de violências e foi hostilizada por um grupo de colegas. “Eram relatos muito pesados que elas dividiam comigo e não tínhamos assistência psicológica. Mas diziam que eu não poderia interagir com essas crianças porque era professora, não psicóloga. Faziam rodinhas entre eles e eu não participava. Era excluída das decisões e às vezes me faziam sair de lá às dez da noite”, conta.

Após um ano e meio nessa escola, em meados de 2017, Vívian chegou ao limite. “Estava estressada e cansada. A gente acaba arrastando a carga emocional durante anos e não percebe o que está acontecendo”, diz. “Nessa época, surtei e briguei com todo mundo. Com a diretora, professores e descontei até nas crianças. Foi quando me encaminharam para um psiquiatra e um psicólogo”, relata. O diagnóstico foi Síndrome de Burnout, também conhecida como Síndrome do Esgotamento Profissional — e que não deve ser confundida com o cansaço rotineiro. Com sintomas físicos e emocionais, o burnout é resultado direto de situações de trabalho desgastante.

Nos últimos anos, a síndrome tem ganhado destaque nas discussões sobre saúde mental e trabalho. Em janeiro de 2022, a Organização Mundial da Saúde (OMS) incluiu o Burnout como fenômeno ocupacional na CID-11 — ou seja, oficialmente um “fenômeno ligado ao trabalho”. “É muito importante esse reconhecimento como doença do trabalho, porque na minha época achavam que era um chilique, que não era motivo para afastamento. O sistema de trabalho que vivenciei era de péssimas condições e sem uma assistência psicológica para tantas descargas emocionais”, conta.

Toda essa experiência mostrou para Vívian que era preciso priorizar sua saúde mental quando o assunto era trabalho. “Amo cozinhar e sempre dava um jeito de pegar uma encomenda ou outra de bolos. Quando consegui sair da escola, entre 2017 e 2018, entrei de vez para a confeitaria com a ajuda do meu marido, que vendeu a moto dele para investir em mesa, fogão, batedeiras e utensílios para eu ter melhores condições de trabalhar”, conta ela, hoje confeiteira em tempo integral. “Ainda faço tratamentos e continuo trabalhando muito. Mas não abro mão mais de ter tempo livre para descansar e cuidar da minha saúde”.

Esgotamento
Neste sábado (14), o projeto PsiQUÊ? continua a série de reportagens especiais sobre saúde mental no trabalho, que segue ao longo do mês de maio. Você sabia que quando os níveis de estresse, angústia, cansaço e desmotivação relacionados ao trabalho alcançam níveis patológicos, a ponto de gerar o esgotamento do indivíduo, um alerta importantíssimo se acende? A Síndrome de Burnout é uma condição que gera sintomas emocionais e físicos, que vão desde agressividade, mudanças bruscas de humor, lapsos de memória e dificuldade de concentração até dores musculares e de cabeça, cansaço excessivo, insônia e alterações no apetite.

Como consequência, o burnout pode resultar em pressão alta, doenças cardiovasculares e distúrbios gastrointestinais. “A síndrome geralmente se mescla a quadros de depressão e ansiedade. Por isso é fundamental buscar avaliação de um profissional para fazer o diagnóstico correto e tratar o indivíduo”, comenta a psicóloga e psicanalista Anna Lopes Coelho.

“Nunca se ouviu falar tanto sobre burnout, hoje considerada uma doença ocupacional. O mercado de trabalho vem sendo cada dia mais competitivo e exigente e os profissionais vêm convivendo com altos níveis de estresse. Temos outras variáveis externas também que geram características de esgotamento, que trazem consequências nas condições físicas, emocionais e psicológicas do profissional”, explica o psicanalista Dadson Borges, vice-presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH Brasil) e diretor de gente e gestão do Grupo Planning.

Um dos motivos para esse maior destaque do assunto está, sem dúvidas, o período da pandemia e suas diversas demandas de mudanças e adaptações no trabalho. “Além disso, perdemos amigos e parentes e a sociedade entrou em uma atmosfera geral de medo da doença, por ser algo novo. As empresas precisam se preocupar com  a maneira como os colaboradores estão se comportando de forma psicológica”, aponta Dadson.  

O assunto não é novidade da pandemia, é verdade, mas o maior investimento em programas que atendem psicologicamente os profissionais é uma tendência que veio para ficar, como ele avalia. “É preciso oferecer um programa estruturado, em que as pessoas possam ter acesso a profissionais de forma mais acessível e, principalmente, a profissionais éticos. Os colaboradores precisam de confiança para se abrir, falar sobre suas dores, conflitos e o que está os incomodando”, comenta. “A facilidade trazida pela tecnologia também é um ponto positivo, se é que podemos falar em algum ônus da pandemia. Hoje temos muito mais atendimentos on-line e várias plataformas que oferecem esse atendimento para as empresas”, diz. 

Em 2021, dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização Pan-americana da Saúde (OPAS) apontaram o Brasil como o país mais ansioso do mundo e o segundo na classificação de diagnóstico de depressão das Américas. O mesmo estudo mostra que, em relação ao trabalho, doenças mentais representam um terço das causas de incapacidade no mundo, sendo a depressão e os transtornos de ansiedade as maiores causas. Antes da pandemia, os dados já eram alarmantes: quase 19 milhões de brasileiros conviviam com ansiedade e depressão. 

Mercado de trabalho extremamente competitivo, crise sanitária e econômica, aumento das taxas de desemprego. Somado a isso, a precarização do trabalho, o medo de perder o emprego e as altas expectativas de desempenho entram na lista. A relação desse cenário está estreitamente relacionada à demanda crescente por atendimentos ligados à saúde mental — e por isso a importância de uma condição como o burnout ser categorizado oficialmente como doença do trabalho, garantindo direitos como o afastamento pelo INSS (com continuidade no pagamento do FGTS mensal), e a possibilidade de reconhecimento de indenização por danos morais e até mesmo materiais na Justiça do Trabalho.

De 2019 para 2020, houve um aumento de 29% na concessão de auxílio doença pelo INSS para doenças relacionadas a transtornos mentais e comportamentais. Também em 2020, esse adoecimento resultou em um aumento de 26% de pessoas afastadas do trabalho em comparação a 2019, segundo dados da Secretaria Especial de Previdência e Trabalho. “Os afastamentos são sempre um grande prejuízo, mas não só à organização e a sua produtividade. O prejuízo é também ao colaborador, em função de que a identidade de um profissional se dá muito pelo que ele realiza no ambiente de trabalho”, aponta Milton Marinho, presidente da ABRH Goiás. 

Os dados já eram alarmantes, mas o período pandêmico mostrou para os gestores que esse é um assunto que não dá mais para ignorar. “Estamos sendo convidados a falar muito mais sobre esse tema. A crise sanitária tem feito com que esse diálogo, que em certa medida já era tratado como cuidadoso, seja amplificado vigorosamente”, observa Milton. “Temos recebido a demanda de tratamento e cuidado com o colaborador no ambiente organizacional nas áreas de recursos humanos, buscando apoio aos profissionais no enfrentamento aos acometimentos da saúde mental ligada ao trabalho”.

Milton aponta que os números divulgados sobre adoecimento e afastamentos por problemas ligados à saúde mental são refletidos no dia a dia, com a demanda crescente de busca por apoio, tratamento e cuidado com o colaborador pelas áreas de recursos humanos das empresas e dos próprios profissionais. “Tivemos aumento nas demandas de formação para poder lidar com os jogos de excessos e faltas, que são comuns nos ambientes de trabalho. Depressão no trabalho, a Síndrome de Burnout, que está cada vez mais evidenciada e categorizada, o estresse ocupacional”, comenta. 

“Para além do sofrimento da pandemia, houve também um aumento de conscientização. Muitas empresas passaram a considerar esses aspectos relacionados à saúde mental de uma maneira diferente, os colocaram em um outro patamar”, comenta Eugênia Sofal, psicóloga, terapeuta ocupacional e consultora de gestores e equipes de RH. “Hoje, mais do que nunca, sabe-se que uma pessoa que está bem e saudável é mais produtiva e se autorealiza. A questão da realização e autorealização  já estão colocadas como parte da saúde organizacional, de fato”, diz.