Depois de uma temporada de dois anos em São Paulo (SP), o artista visual goiano Santhiago Selon retorna a Goiânia para transformar as paredes da Sala Sebastião Barbosa, na Vila Cultural Cora Coralina, na sua própria obra de arte. Ele abre nesta terça-feira (10), a partir das 18 horas, a mostra individual Provisório, que fica em cartaz até 10 de junho e após o período de visitação a intervenção será desfeita. A exposição consiste na modalidade site specific, técnica em que produção e instalação são específicas para o ambiente que abriga o trabalho, sendo, portanto, impossível remontá-lo em outro local.

“Tenho bastante familiaridade com essa modalidade artística, tanto no meu trabalho com grafite quanto em outros tipos de obras. Então, essa questão do efêmero é bem comum na minha carreira pela característica das intervenções que vão se degradando e estão sujeitas a diversas possibilidades de desaparecimento com o tempo. Acaba sendo uma obra transitória, que tem um prazo e que no final perde a configuração”, avalia Selon. O conceito de site specific (arte específica do local) surgiu na passagem da década de 1960 para 1970 nos EUA e na Europa.

Na instalação desenvolvida na Vila Cultural, o artista recolheu materiais recicláveis guardados no espaço, como papelão e compensados, chapas de ferro, para criar o suporte exclusivamente para o trabalho. Já a linguagem é estruturada nas formas geométricas e cromática numa perspectiva abstrata, marca registrada da sua produção. Entre a infinidade de cores, ele utiliza uma paleta reduzida, com o preto, o branco, o azul, o vermelho e o amarelo. É bom lembrar que a pintura de Selon não utiliza spray, como se poderia esperar, já que ele vem do grafite, mas se faz com o uso de tinta látex, esmalte e acrílica.

Para o diretor do museu, Gilmar Camilo, a ideia desse site specific que ocupa o espaço da sala de exposição trabalha, como o nome diz, com o aspecto de transitoriedade na paisagem enquanto arte. Além disso, a modalidade, segundo ele, visa redimensionar as questões da arquitetura e dos espaços externos e internos das cidades, “propondo novas leituras que possam desfazer lugares comuns, organizando enquanto fazer artístico o gestual calculado em um trabalho de grande força e expressividade.” O trabalho de Selon ocupa 63 metros da sala. “É uma obra extremamente calculada”, ressalta o curador.

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Provisório também quebra um período sem exposições de Selon na capital. A última foi há quatro anos, quando ele deixou o mural de lado e apresentou um conjunto de trabalhos inéditos feitos na técnica sobre tela num conjunto de três gravuras digitais impressas e 27 pinturas de acrílico. “O tempo sem fazer uma individual em Goiânia não foi nada programado, muitas vezes estava ocupado com outros projetos e nem sempre com uma produção abundante em ateliê para mostrar. Agora sinto que é um bom momento para expor uma parte do que venho pesquisando nos últimos anos”, diz.

Além disso, não é a primeira vez que o artista desenvolve um trabalho especificamente para o local que está expondo. Em 2014, ele participou da coletiva Seis Vezes Simultânea, no Centro Cultural Oscar Niemeyer (CCON), onde fez uma grande pintura nas escadarias do museu. Assim como Selon, a mostra foi responsável por revelar importantes nomes da arte goiana, caso de Anna Behatriz Azevedo, Dalton Paula, Helô Sanvoy, Paul Setúbal e Rava. “Trata-se de uma grande geração da arte goiana como nomes premiados em vários salões e que desenvolveram uma carreira nacional”, ressalta Gilmar.

Reconhecimento

Ao longo das duas últimas décadas, Selon tem circulado sua produção de maneira diversificada. Desenvolve e executa projetos, participa de exposições individuais e coletivas em salões de arte, possui trabalhos em importantes coleções particulares e públicas, como o Museu de Arte Contemporânea de Goiás e o Centro Cultural UFG. “Grande talento de sua geração, ele sempre teve nas linguagens tradicionais o desenho e a pintura como ponto de partida de sua obra e hoje ele transita com profundidade e rigor estético por vários suportes e mídias contemporâneas como as suas intervenções”, cita Gilmar.

No período em que morou em São Paulo, nos últimos dois anos, bem no início da pandemia, Selon foi o vencedor do concurso Novos Talentos em Murais SP, que reuniu importantes nomes do grafite paulista, como Thiago Nevs, Rafael Sliks, Fidelis o Kueio, Pixote Mushi, Marina Rodrigues, Bruna Serifa e Felipe Ikehara. “Foi muito legal essa experiência na carreira e ao final realizei uma pintura em um prédio de dez andares num lugar muito legal na cidade”, ressalta o artista, que tem uma agenda de trabalhos nos próximos meses em Goiânia. “A ideia é ficar o ano todo aqui desenvolvendo a minha arte”, afirma.

Nos últimos anos, a obra do goiano também passou por um processo de amadurecimento por conta da sua pesquisa da relação da pintura com o suporte e como apresentar isso em alguns espaços privados, já que essa questão é resolvida rapidamente nas ruas. “O meu trabalho no início tinha menos elementos e às vezes passo por alguns momentos de composições mais complexas e de muitas cores e agora estou novamente primando por algo mais econômico, principalmente na questão das cores e também na questão formal, fazendo um jogo entre complexidade e simplicidade”, conta.