“Onça é bonito! Mecê já viu? Bamburral destremece um pouco, entremeceuzinho à toinha: é uma, é uma, eh, pode ser… Cê viu despois – ela evém caminhando, de barriga cheia? Ã-hã! Que vem de cabeça abaixada, evém andando devagar: apruma as costas, cocurute, levanta um ombro, levanta o outro, cada apá… cada anca redondosa.. Onça fêmea mais bonita é Maria-Maria…” E eis a mulher que vira onça, a onça que é mulher. Parece enredo da novela Pantanal, cujo remake tem conquistado o Brasil? Sem dúvida, mas este é um trecho do conto Meu Tio O Iauaretê, de Guimarães Rosa, inserido no livro Estas Estórias.

A onça, portanto, habita a tapera de Juma no horário nobre da Globo, habita a obra do maior escritor brasileiro do século 20, habita as lendas indígenas de vários povos e que foram compiladas e reconfiguradas em trabalhos de Monteiro Lobato a Mário de Andrade, habita os versos da literatura de cordel, habita o nosso imaginário em vários campos. Maior felino das Américas, olhar misterioso, lindeza absoluta nas estampas amarelas e negras, a onça é uma onipresença, seja na moda, seja nas notas de 50 reais. Isso não acontece à toa e, ciente disso, Benedito Ruy Barbosa, autor de Pantanal, decidiu explorar esse mito.

São muitos os autores que tiveram na onça um personagem principal de suas narrativas. Na obra de Guimarães Rosa, a história de Meu Tio O Iauaretê, publicada postumamente, traz um conjunto de histórias lendárias, nas quais seres humanos e felinos se misturam, trocam de posição e ilustram uma relação às vezes conturbada, às vezes orgânica entre o homem e a natureza. Os calores dos bichos, sua alimentação, a transmutação por vias mágicas são trazidas, sem deixar de fora a cultura sertaneja, de homens acostumados a caçar animais selvagens. Neste caso, arrependimento que muda para amor e mistério.

Maria Quirinéia, personagem-onça do conto, é o arquétipo da fusão do animal em gente. É o que acontece com a Maria Marruá da novela, algo que herdamos de mitos indígenas ancestrais, colhidos por exploradores e estudiosos e que, não raramente, é um ponto de resistência cultural de povos que se viram diante da extinção. Um deles é o mito de Jaguaretê-Ava, O Homem Onça, narrativa colhida ainda no século 17 entre os indígenas Guarani-Itatim, que viviam onde hoje é o Mato Grosso do Sul (sim, a região pantaneira é o habitat também desses mitos). E nessa lenda, o bem e o mau se encontram.

A lenda tem sido estudada pelo pesquisador de História Indígena Neimar Machado de Sousa, segundo o Conselho Indigenista Missionário. Segundo o relato, esse ser híbrido apareceria para os viajantes das estradas e trilhas do sertão e antes de ser amaldiçoado, teria sido um indígena “de má índole”. Tentado por um demônio, teria matado a própria família, condenando a si mesmo à solidão (as onças são bichos solitários) e a vagar pelos caminhos em busca de carne humana. Para consegui-la, atacaria os incautos caçando como uma grande onça devoradora de gente. Aqui aparece o elemento do canibalismo.

Essa questão também surge na obra Meu Destino é Ser Onça, do escritor carioca Alberto Mussa. Nesse ensaio, que ele admite ter sido trabalhoso montar, o autor revisita lendas indígenas para atualizar nosso olhar sobre um imaginário gerador de tantos outros. “Os nossos mitos, os mitos tupi, são os mais antigos das Américas, no sentido de que foram os primeiros a ser recolhidos pelos europeus. Se existe alguma obra que deva ser considerada a primeira literatura brasileira, qualquer que seja o critério, é esse conjunto mitológico”, argumentou ele, em entrevista ao jornal Rascunho, especializado em literatura.

No seu livro, Mussa inclui a lenda tupinambá de Sumé, o homem que se transforma em onça e que afasta possíveis caçadores da tribo porque o animal representaria uma espécie de “tio” de todo o povo, uma vez que aquele guerreiro ajudou a ensinar seus companheiros a se defenderem. Esse relato tem seu primeiro registro escrito no livro Duas Viagens ao Brasil, de 1557, do mercenário Hans Staden, que chegou a ser prisioneiro dos tupinambás. Não à toa, Guimarães Rosa inspira-se no que há em torno de tais transmutações, chamando também seu personagem de “Tio”, aquele que ultrapassa o estado humano.

“A onça é o grande felino das Américas, encontrada de norte a sul deste vasto continente, interlocutora entre o humano e o divino, o mundo dos vivos e dos mortos em várias culturas de povos pré-colombianos e seus remanescentes, de modo que migra do ambiente selvático para o ambiente sempre móvel e fértil da cultura, da roupa aos muros das cidades, da literatura à música, da estampa ao corpo”, avalia a escritora Micheliny Verunschk, autora do romance O Som do Rugido da Onça, que resgata parte da mitologia indígena ligada ao grande felino. “Então é um fascínio que se renova, e isso se dá porque diz quem somos.”

Bicho temido e fascinante, o felino é o protagonista, ainda com esse registro mais folclórico, de O Casamento da Onça, de Monteiro Lobato. Neste caso, ele toma uma fábula contada oralmente há muito tempo, incorporando às histórias do Sítio do Pica-Pau Amarelo. No livro Histórias de Tia Nastácia, por exemplo, há outras, como A Onça e O Coelho, O Jabuti e A Onça, todas observando a estrutura de relatos do gênero, em que os animais ganham características humanas e se envolvem em situações das quais, no final, tira-se uma “moral da história”, um ensinamento para a vida. Receita comum em narrativas infanto-juvenis.

A pesquisadora Luciana Hartmann, em estudo sobre o tema na Universidade de Brasília, debate a presença da onça em produções do gênero. Ela surge, por exemplo, no livro do escritor indígena Daniel Munduruku, chamado O Onça. Na história, um jovem de uma tribo é traído por seu irmão invejoso, que o faz se perder na floresta. Preso no alto de uma árvore, uma onça macho aparece e o ajuda, para depois ensiná-lo outras habilidades de caça e sobrevivência na mata. Novamente, um vínculo profundo entre o animal e o ser humano norteia a narrativa, num convite de interação entre pessoas e natureza.

Amigos (e inimigos) da onça
“Ele desvia a vista, repara, oh lá o vulto mosqueado de uma lepa de onça pintada negaceando, grelada, pula-não-pula. Seu compadre, descuidado de tudo, ia morrer sem saber do quê.” Andar pelos sertões inóspitos das matas brasileiras, durante um bom tempo, não era algo seguro. Vegetação fechada, os grandes felinos poderiam estar à espreita, causando terror nos aventureiros em seu desafio. Mas as onças tinham motivo para ficar atentas. O trecho acima é do livro A Ressurreição de Um Caçador de Gatos, de Carmo Bernardes, e relata a história de um personagem comum no passado: o caçador de onças.

Na literatura brasileira, há muitos amigos da onça – no sentido literal e no figurado. Isso quer dizer que há histórias em que o bicho é herói e em outras em que é a ameaça. Às vezes, pode exercer os dois papéis ao mesmo tempo. A Ressurreição de Um Caçador de Gatos é um desses casos. Nesse livro, que ganhou o Prêmio Casa das Américas, Carmo, um defensor árduo da natureza, agrega a essa militância o imaginário sertanejo, em que os peões e as onças tinham relações nem sempre amistosas. Mas é interessante a ênfase que se dá ao respeito que o animal desperta, em inimigos e admiradores. E, claro, nos autores.

Bernardo Élis trouxe a onça como uma referência constante. Um de seus personagens se chama Resto-de-Onça, um jagunço notório pela pontaria e malvadeza. No seu livro de estreia, o volume de contos Ermos e Gerais, Élis cria, no texto Pai Norato, um protagonista com o poder de hipnotizar onças bravas. Mas com uma delas… “Veio mansa, ronronando para ser alisada e de supetão, quando o velho a estava alisando, foi aquele pincho. Assentou-lhe as patas na goela, rasgou, puxou as carnes com a dentuça afiada e faminta. Dilacerou-lhe o ventre e em seguida arrastou aqueles molambos lá para a grota.”

Tragédias nos encontros, sustos em que o bafo da morte se aproxima são cenas até certo ponto comuns. Mas nenhuma delas chega perto dos causos contados por Graciliano Ramos em Alexandre e Outros Heróis. O narrador é um mentiroso contumaz e divertido e logo em sua primeira aventura, ele faz de uma onça pintada sua montaria, confundindo-a com uma égua. “Uma onça pintada, enorme, da altura de um cavalo. Foi por causa das pintas brancas que eu, no escuro, tomei aquela desgraçada pela égua pampa.” Por isso Alexandre inspirou Pantaleão, personagem de Chico Anysio e que mentia sem remorso e limite.

Uma onça, vermelha e alada, voa na história O Rei Degolado, de Ariano Suassuna. A onça como um ser apto a transformar-se e que Macunaíma, personagem icônico criado por Mário de Andrade, acredita ser os carros que vê na cidade. “As onças pardas não eram onças pardas, se chamavam fordes hupmobiles chevrolés dodges marmons e eram máquinas”, escreve Mário, naquele que é o maior clássico literário do movimento modernista. Aliás, resgatar esses saberes lendários, as tradições dos povos originais era um dos objetivos dos trabalhos dos modernistas, num dinâmico deglutir de referências e magias.

A onça também pode ser encontrada na literatura de cordel nordestina. Histórias clássicas como A Onça e O Bode, A Onça que Não Queria Caçar, O Matuto e a Onça e o Discurso da Onça servem de inspiração para autores e repentistas e constam nas antologias do folclore da região, em estudos como os de Câmara Cascudo, por exemplo. O escritor mineiro Mário Palmério, em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, faz referência a um episódio envolvendo o embate com uma onça preta que, vejam vocês, ria e que ele descreve no livro Vila dos Confins. As onças são mesmo muito versáteis, não é mesmo?

Luta contra a extinção
O Brasil tem acompanhado, hipnotizado, as aventuras de uma onça goiana. Na novela Pantanal, podemos ver Matí, que vive no criatório conservacionista NEX (No Extinction), localizado no município de Corumbá de Goiás. Ela veio já adulta para seu atual refúgio de outra ONG situada em Goiás, o Instituto Onça Pintada, sediado ao lado do Parque Nacional das Emas, em Mineiros. “Eu sabia que ela vinha mansa, mas não sabia que viria tão mansa”, admite Daniela Gianni, Coordenadora de Projetos e Atividades do NEX. Ela foi a responsável por acompanhar o grande felino na maratona de filmagens no Pantanal.

“Eu não sou muito a favor de animais em produções artísticas, mas acho que a novela tem uma mensagem de preservação importante”, afirma Daniela. “A gente tem um problema cultural e por ignorância, medo, não querem saber das onças. Ela ainda é um animal mal visto em locais mais afastados. Essas pessoas eu nem culpo porque não tiveram acesso à informação, mas fazendeiros que matam porque as onças vão predar o gado, eu os acho extremamente cruéis. Esses eu condeno. Ela ataca o gado porque está ficando sem habitat. Eles causaram esse impacto, invadiram o espaço dela”, argumenta.

“Há também aquela parte da população mais espiritualizada, que gosta de xamanismo, que enxerga a onça como um animal de poder. Muita gente relata visões com as onças no xamanismo. Recebemos um indígena recentemente no NEX que tem visões com a onça, ela é seu animal de poder. O fotógrafo da natureza Lawrence Wahba também teve um encontro com sua onça”, relata Daniela. “Tem pessoas que estão achando linda a onça, mas ainda não estão entendendo nada sobre ela. Mas está tudo bem.” O objetivo de dar maior visibilidade ao animal e despertar simpatia em relação às onças tem sido alcançado.

O NEX é uma instituição pioneira neste tipo de trabalho de conservação, criada 22 anos atrás. “Naquela época, não havia fiel depositário desses animais selvagens, não existiam cuidadores que pudessem fazer esse trabalho pelo Estado. O NEX começou a legislação com o Estado, construindo o primeiro recinto, estabelecendo o tamanho que precisava ter. Fomos criando essas leis para que outras pessoas pudessem ter centros de conservação. Depois vieram outras demandas. Por 10 anos, o NEX foi o único criadouro específico para cuidar de onças no Brasil”, relata Daniela. E tudo começou por acaso.

“Já tínhamos a fazenda. Não somos biólogos, nem veterinários. Sempre gostamos de animais, mas eram cavalos, cachorros. Quando a gente ia imaginar que ia cuidar de onça?”, ri. “Foi um pedido de socorro o encontro da minha mãe, Cristina, com a primeira onça. Ela foi visitar um zoológico e a amiga dela que a levou era bióloga, que tinha acesso a áreas restritas desse lugar. Havia uma caixa pequena, de 2 x 2 metros, coberta com uma lona, e ela perguntou o que tinha ali. E era uma onça, uma sussuarana. O nome dele era Pacato e ele estava há 4 anos naquela caixa sem se levantar direito. Estava ficando atrofiado.”

Pacato foi a primeira adoção. A segunda onça foi Sansão, que continua no local até hoje, 22 anos depois. “Uma onça em vida livre vai até os 15 anos e em cativeiro, em média, até os 20. Hoje ele é o macho mais velho em cativeiro catalogado no mundo”, celebra Daniela. “Hoje estamos com 25 animais, um sendo treinado para soltura. Nosso objetivo era abrigar animais que não pudessem voltar para a natureza e ser um centro de conservação e pesquisa das onças. Ao longo desses 22 anos, já passaram mais de 70 onças sob nossos cuidados.”

Reprodução
A reprodução em cativeiro também tem sido realizada no NEX. “Durante muito tempo, a gente não era a favor dessa reprodução porque um animal nascido em cativeiro é muito mais difícil de soltar. Agora, como infelizmente a gente está perdendo essa luta contra a extinção, estamos fazendo pareamentos objetivos. Hoje a gente faz cruzamentos de animais que tenham seus biomas extremamente ameaçados, que são a Caatinga, a Mata Atlântica e o Cerrado”, explica Daniela. Segundo levantamento do ICMBio, há hoje 55 mil onças na Amazônia e 10 mil no Pantanal, mas apenas mil indivíduos no Cerrado e só 600 na Caatinga e Mata Atlântica. O animal corre risco extremo de extinção.

“Extinção é para sempre. Não adianta querer fazer algo depois que acabar”, alerta Daniela. “A gente tem que ter orgulho dessa espécie. A gente valoriza muito o que tem lá fora. O Rei Leão é o máximo, animais que nem temos aqui são o máximo, mas é a onça que tem que ser o máximo para a gente, ela é que precisa estar nos nossos desenhos animados, nas nossas pinturas. Temos que olhar com mais carinho para nossa biodiversidade e tentar preservá-la.” Matí – “a onça que não esturra, mia”, como afirma Daniela – tem conquistado mais e mais fãs na novela, mas a conscientização precisa ir além do horário nobre.

Onças para todo lado
Suas pintas, seu porte, seu olhar penetrante fazem da onça inspiração em várias áreas:

Onça na moda – Uma das estampas que frequentemente volta à moda é exatamente a da onça. As pintas são utilizadas em roupas, sapatos, bolsas, lenços e até roupa de cama e mesa e estofados e móveis. Motivos que vão do chic ao brega com a mesma desenvoltura.

Ditados – A onça está na boca do povo. Quando algo importante está prestes a acontecer, está chegando “a hora de a onça beber água”. O cartunista Péricles criou em 1943 o famoso personagem O Amigo da Onça, o camarada em quem não se poderia confiar.

Música – “Uma onça pintada e seu tiro certeiro, deixou os meus nervos de aço no chão”, canta Alceu Valença, em um de seus maiores sucessos. De Tião Carreiro & Pardinho a Zeca Baleiro, o felino percorre canções de todos os gêneros em nossa música.

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