A relação do goiano com o vinho está diferente. A mudança pode ser notada pela quantidade de casas especializadas que se instalaram na capital nos últimos dez anos. Nesse intervalo, restaurantes mais requintados ampliaram suas seleções de rótulos, arquitetos passaram a incluir adegas em seus projetos e a figura do sommelier tornou-se indispensável dentro dos locais que servem a bebida. Contudo, o paladar dos novos enófilos ainda está em construção. Prova disso é a preferência por vinhos mais potentes, concentrados e bastante alcoólicos – mesmo morando em uma região na qual é verão quase o ano inteiro.A simpatia pelos tintos com forte marca da barrica de carvalho também vai no sentido contrário da atual tendência do setor. Segundo enólogos e sommeliers, agora é a vez de tintos e brancos com pouca, ou nenhuma, passagem pela madeira, o que, na prática, significa vinhos mais leves, florais, frutados e fáceis de beber. “Os biodinâmicos, produzidos de maneiras alternativas e sustentáveis, também vêm ganhando espaço cativo dentro das principais adegas”, garante o sommelier Tiago Locatelli, que roda o Brasil promovendo a cultura do vinho e representando uma das maiores importadoras do País.De acordo com o especialista, na lista de grandes novidades estão ainda os chamados oranges wines, apelidados por alguns de “novos rosés”. Feita com uvas brancas que são fermentadas com a casca, a bebida tem coloração e aroma muito particulares. “Os laranjas são excelentes representantes da categoria de vinhos mais delicados, uma verdadeira sensação continental. Por aqui, ainda nutrimos a ideia de que, quanto maior o teor alcoólico, melhor será a bebida. Essa percepção está mudando ao poucos, mas está. Acredito que com o tempo vamos treinar o nosso paladar e também acabar preferindo o frescor à potência.” Paladar apurado A comparação entre os apreciadores de vinho do Brasil e do restante da América Latina, como argentinos, chilenos e uruguaios, pode soar um tanto quanto injusta, visto que por aqui a bebida tem na cerveja um concorrente de peso. Mas Tiago aponta outro grande obstáculo no que se refere ao aumento do consumo. “O brasileiro, no geral, gosta de estar bem informado e isso acaba tornando-se um problema, pois ele se relaciona de maneira formal com a bebida. Criamos uma ideia que, para se beber vinho, é preciso saber a diferença entre as uvas merlot e cabernet sauvignon, por exemplo. Enquanto não enxergarmos o consumo de maneira despojada, só o faremos em taças de cristal”, provoca.Hoje, Tiago Locatelli estará em Goiânia para participar do Decanter Wine Day, uma mostra internacional de degustação de vinhos que ocupa, entre 20 e 23 horas, o restaurante Contemporane, no Setor Marista. Na ocasião, os participantes poderão experimentar rótulos de origens nacionais e internacionais da bebida. “Eventos como esse são fundamentais para a formação de público e para apurar o paladar de quem já aprecia vinho. Durante estes encontros, podemos também desmitificar o fato de que o tinto encorpado é mais saboroso, traz maiores benefícios à saúde e é a única opção na harmonização com carnes vermelhas.”Segundo o sommelier, o resultado desse trabalho corpo a corpo pode ser notado estatisticamente. Dados do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin) mostram que o consumo da bebida cresceu 15% no ano passado, totalizando 417 milhões de litros comercializados, e que o bom desempenho foi estimulado pelos espumantes, cujas vendas, entre janeiro a outubro, cresceram 13,4%. “Isso prova que a mudança vem atingindo o consumidor, cada vez mais atento diante das diferenças entre os tipos e os rótulos da bebida. Nesse processo, a degustação é fundamental. A exposição a novos sabores amadurece o paladar”, defende.-Imagem (Image_1.1808917)