Uma política externa real, menos ideológica e que priorize, de fato, os interesses do Brasil. Esta é a receita para as relações exteriores do governo Jair Bolsonaro do doutor em relações internacionais e professor da Universidade de Warwick (Inglaterra) Tom Long. Autor do livro América Latina confronta os Estados Unidos: assimetria e influência, ele é pesquisador com vários trabalhos publicados sobre a relação entre os países latino-americanos e a grande potência mundial. Nesta entrevista exclusiva para O POPULAR, Tom Long faz um balanço dessas relações às vésperas das eleições nos Estados Unidos e analisa a política externa de Bolsonaro na região. Na opinião do sr., como podemos resumir a relação do governo Donald Trump com a América Latina?Trump não tem uma política coerente em relação à América Latina. Isso não é necessariamente ruim, porque uma política única para toda a região tem muitos defeitos. O principal problema é que ela não tem tido muita coerência em relação às sub-regiões ou nas relações individuais. A política de Trump tem três aspectos chaves. O mais importante, de longe, é a imigração. As políticas de imigração restritivas e nativistas - com inspiração totalmente doméstica - condicionou algumas das mais importantes relações de Washington na maior parte do mandato de Trump. Em nenhum lugar isso ficou mais claro do que no México, onde as demandas por cooperação na migração ofuscaram até mesmo a política de combate aos narcóticos e ameaçaram minar uma das relações econômicas mais valiosas dos Estados Unidos. A América Central foi vista quase totalmente pela lente desgastada das políticas anti-migratórias. Contudo, enquanto esta questão esteve no topo das preocupações da administração Trump, do México e da América Central, isto teve muito menos impacto para a América do Sul e o Brasil.O segundo aspecto é a escalada na disputa entre Estados Unidos e China. As preferências dentro do governo em relação à China e à guerra comercial foram um pouco mais divididas, mas poucos no governo questionaram a 'suposição hegemônica' de que a América Latina deveria se alinhar aos Estados Unidos. Nós vimos isso antes dentro da retórica da Doutrina Monroe - declarada morta por John Kerry (ex-secretário de Estado na administração de Barack Obama) anos antes -, nos alertas crescentes sobre Taiwan e sobre a 'armadilha da dívida' com a China. Em algum grau, o fim do boom das commodities pode ter criado um espaço para Washington reafirmar a sua liderança na esfera econômica da América do Sul frente à China, mas não há plano coerente de Trump para fazer isso. Ao invés disso, houve uma reaproximação e alertas, mas sem novas ideias de como a América do Sul poderia melhorar seu crescimento numa maneira mais sustentável que dependesse menos da demanda chinesa por produtos primários.O terceiro aspecto é, claro, a Venezuela. Aqui houve muito calor, mas não muita luz. O governo foi surpreendentemente bem-sucedido em conseguir que os países apoiassem o reconhecimento de Guaidó (Juan, opositor de Nicolás Maduro que se autoproclamou presidente do país), mas logo ficou claro que havia superestimado sua influência dentro da Venezuela. Depois de jogar suas duas cartas mais importantes - reconhecimento e as sanções sobre o petróleo - não sobrou muito o que fazer. Então, o tom continuou amargo, mas a questão tornou-se mais um teste decisivo do que uma política real. Não houve estratégia ou ideia sobre onde ir depois que a jogada inicial não conseguiu derrubar Maduro. Desde o início, como no caso da migração, essa política foi impulsionada por apelos de uma fatia do Partido Republicano. Como mostram décadas de relações com Cuba, quando os Estados Unidos fazem política externa para apaziguar uma pequena fatia do eleitorado (e de doadores), a política pode ser desastrosa, mas ainda durável.Além dessas três questões, o envolvimento foi limitado e altamente transacional. Trump ficou feliz em receber a admiração de Bolsonaro, mas o que isso trouxe? Duque (Iván, presidente) da Colômbia teve o cuidado de não contrariar Trump, mas foi criticado por causa da coca de qualquer maneira. Enquanto isso, a AMLO (André Manoel López Obrador, presidente do México) barganhou nas costas dos migrantes da América Central para preservar o espaço político e manter o comércio em movimento. Se Donald Trump vencer a eleição, o sr. acredita que haverá mudanças nesta relação?Eu não esperaria grandes mudanças em um segundo mandato. As três questões serão intensificadas e a política interna continuará a dominar a diplomacia latino-americana de Trump. Vai ser muito difícil reverter as disputas comerciais com a China, então isso também será alavancado como um teste decisivo. A política externa de Trump exigirá um adversário e a China é o mais óbvio, e onde Trump pode angariar algum apoio. Trump manterá a pressão sobre a Venezuela e Cuba porque fazer o contrário admitiria a derrota e porque seus apoiadores no sul da Flórida esperam por isso. Mas é muito difícil imaginar um esforço amplo e cooperativo que caracterizaria as relações EUA-América Latina em um segundo mandato, porque a política externa de Trump é naturalmente cética em relação à cooperação de longo prazo e ao multilateralismo. Sem isso, os benefícios para a América do Sul são limitados. E Joe Biden? O que podemos esperar de seu governo em relação à América Latina?Biden proporcionaria uma mudança imediata no tom e uma alteração muito grande na essência da relação para com o México, América Central e Caribe. As mudanças para a América do Sul - com exceções parciais da Colômbia e da Venezuela - seriam menores. A razão para a mudança de essência é, em primeiro lugar, devido à migração. Uma grande parte da coalizão de Biden pressionará pela reforma da imigração. Eles podem não receber "a enchilada inteira", como Vicente Fox propôs certa vez. Mas eles certamente terão uma abordagem menos punitiva para a fronteira e os pedidos de asilo, e uma abordagem mais cooperativa para a gestão da migração com o México e partes da América Central.A dificuldade para Biden é que seus potenciais parceiros na América Central - especialmente Juan Orlando Hernández em Honduras - não inspiram muita confiança. Ainda assim, Biden estará ansioso para virar a página nas manchetes da Era Trump sobre separação familiar (de imigrantes) e crianças em gaiolas. Da mesma forma, acho que veríamos um rápido retorno às políticas de Obama para Cuba, embora isso requeira alguma negociação devido à mudança de governo em Cuba desde então. E Cuba ficará compreensivelmente cética, já que viu esta reaproximação ser revertida por Trump. Como com a migração, isso não será uma retomada total. A política de Biden aceitará a premissa de que o embargo falhou, mas é provável que mantenha o mesmo objetivo de longo prazo, ou seja, a democratização em Cuba. Mas você pode esperar que os funcionários do governo Obama que apoiaram essa mudança de política voltem a posições de influência.Em termos gerais, não acho que a América do Sul receberá muita atenção no início do mandato. O primeiro ano de Biden será consumido pela resposta à crise de saúde pública, em primeiro lugar, e pela resposta à queda econômica nos Estados Unidos, em segundo lugar. Na política externa, haverá maior ênfase no multilateralismo - especialmente no apoio aos Acordos de Paris e à OMS. Eles representam as dimensões internacionais de duas prioridades principais para o eleitorado democrata. Haverá maior abertura à assistência humanitária e econômica à América do Sul em sua própria recuperação da pandemia; este seria um ótimo momento para um esforço unificado da América do Sul pela liderança regional e uma resposta ampliada do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Mas essa mesma coordenação desapareceu inteiramente sob pressão por Trump na nomeação de Claver-Carone (Mauricio, primeiro americano presidente do BID em 61 anos com apoio fundamental de Bolsonaro).Como Biden terá foco doméstico e como sua administração geralmente será mais aberta a soluções cooperativas, acho que pode haver uma janela genuína para a América do Sul avançar seus próprios projetos e remodelar elementos do relacionamento. Por um lado, os acontecimentos recentes relativos à Unasul, Venezuela e BID não inspiram muita confiança. Mais positivamente, Escazú (acordo entre países da América Latina e Caribe de ações sobre o clima e direitos humanos) poderia sugerir um modelo de engajamento no clima. Certamente há uma demanda reprimida para mudar a abordagem regional da 'guerra às drogas', e elementos substanciais da coalizão de Biden também são céticos quanto às consequências internas da militarização do combate às drogas. A questão é: de onde pode vir essa liderança dentro da região hoje?Como o sr. vê o novo acordo do Nafta e como ele pode mudar o relacionamento entre Mexico e Estados Unidos?O México será crucial para as políticas de Biden, e acho que esta é talvez a área mais promissora para a cooperação. Só um pouco disso tem a ver com o USMCA (ou NAFTA 2.0). Francamente, o USMCA não mudou muito. O mais importante é que permitiu a Trump reivindicar a vitória; depois do acordo, ele basicamente parou de ameaçar acabar com o Nafta. Embora AMLO (André Manoel López Obrador, presidente do México) tenha surgido como um crítico ferrenho do Nafta, ele está ciente de que seu fim causaria uma grande crise no México. Acho que a sua mudança de retórica sobre Trump precedeu o acordo e, de fato, foi uma forma de proteger o relacionamento econômico. AMLO tem sido mais pragmático do que nacionalista em seu relacionamento com Trump. Acima de tudo, ele tentou isolar a política interna mexicana das intervenções de Trump, mesmo quando teve que pagar um alto preço na fronteira por isso. Francamente, a migração da América Central não é particularmente popular no México, então ele fez um cálculo um tanto maquiavélico.Em certo sentido, repelir Biden será mais difícil porque o governo Biden teria interesses mais sinceros e cooperativos com o México. Também é mais provável que Biden se preocupe com os direitos humanos no México, que não é algo que a AMLO deseja discutir internacionalmente. As oportunidades de melhorar o relacionamento são imensas, mas AMLO hesitará em convidar os EUA de volta aos assuntos do México. Ele não quer repetir o nível profundo de penetração na esfera de segurança que ocorreu sob Felipe Calderón (ex-presidente), por exemplo. A recente prisão americana do importante general mexicano Salvador Cienfuegos torna isso evidente. Biden precisará respeitar as linhas vermelhas de AMLO; se ele fizer isso, os dois deverão ser capazes de encontrar maior semelhança em fóruns multilaterais.Estamos notando no Brasil que o presidente Jair Bolsonaro tem sido um grande apoiador de Trump, mas a impressão é que Trump não retribui o apoio a Bolsonaro. O sr. concorda que a relação entre Brasil e os Estados Unidos foi desequilibrada nos últimos dois anos?Trump não se importa com o Bolsonaro; Bolsonaro parece se importar um pouco com Trump. Isso intensifica a desigualdade de poder que já caracteriza a relação Brasil-Estados Unidos e, de fato, a torna mais desequilibrada. Claramente, os dois têm algumas semelhanças em suas abordagens das relações internacionais, mas a posição de Trump fez com que suas ações tivessem efeitos realmente grandes e imediatos. As denúncias de Bolsonaro sobre o globalismo importam nas margens, e suas investidas no cenário global não foram convincentes, assim como bastante inconsequentes. No nível regional, porém, a liderança brasileira faz falta. O fato de os EUA não terem um projeto de liderança coerente na América do Sul significa que o transacionalismo tem sido dominante. Isso coloca o Brasil e o restante dos países da região em uma posição bastante fraca com os Estados Unidos e torna muito difícil para eles definirem a agenda.Se Joe Biden for eleito, alguns analistas no Brasil defendem que Jair Bolsonaro teria que mudar sua política externa sob o risco do Brasil ficar isolado. O sr. concorda?Certamente, se transmitir ao vivo assistindo Trump e retuitar Trump não ajudaria em uma administração Biden! Em vez de dizer que Bolsonaro precisará mudar sua política externa, acho que ele precisaria desenvolver uma política real - que defina claramente os interesses do Brasil, não apenas os seus próprios, e desenvolva relações entre estados e não apenas líderes e governos. Novamente, haverá muito pouca atenção para a América do Sul no início do governo Biden, então o Brasil deveria usar esse tempo para reconstruir suas relações regionais em uma base menos ideológica. Este momento de relativa desatenção dos Estados Unidos - mas com uma administração potencialmente mais cooperativa - fornece uma breve janela para definir as prioridades do Brasil e da América do Sul e desenvolver novas idéias de políticas sobre cooperação em saúde, resposta à pandemia, inserção internacional pós-boom das commodities, políticas anti-drogas e política ambiental. Muita gente em Washington estará empurrando suas próprias ideias sobre tudo isso, portanto, obter algum grau de coordenação regional é fundamental se o Brasil quiser ir além. Mas se Bolsonaro não está inclinado a seguir esse caminho - e não é óbvio que ele está - tenho certeza que ele encontrará os antigos discursos do Estado da União de Trump no YouTube.