Comecei a assistir This is Us depois de um milhão de amigos me indicarem a série, gente que me conhece bem, que sabe do que eu gosto. Mas antes dela, eu tinha uma série longa de estimação (Grey’s Anatomy – sim, eu gosto de chorar vendo série) e outras curtinhas para ir vendo de vez em quando. This is Us me pegou, eu e mais de 10 milhões de fãs semanais dos Estados Unidos. A infância, a construção do ser humano, as relações pessoais, profissionais e familiares. Eu e um monte de gente se enxergando um pouco em cada personagem. Se você não é do tipo que gosta de spoilers, não leia esse texto. Assista a série e volta depois.

Em três anos de psicanálise eu descobri que não tenho tantas memórias da minha infância quanto eu gostaria. Descobri que um momento triste era capaz de apagar um ano inteiro de momentos felizes e isso foi me parecendo tão injusto. Eu não entendo tanto como funciona a mente humana, não sei quais são as individualidades de cada pessoa quando o assunto envolve memórias da infância. Mas vendo This is Us eu estou me reconhecendo em tantos momentos: como mãe, como filha, como pessoa.

Como filha o sentimento é de aconchego. É ótimo saber que acontece com muita gente e que nem sempre as memórias estão todas lá, vivas e claras. Como mãe, é desesperador saber que Cecília pode simplesmente esquecer tantas coisas incríveis que vivemos todos os dias e se lembrar apenas de um dia em que gritei alto, de uma briga na frente dela. Ao mesmo tempo em que me reconheço, corro contra o tempo para tentar ser melhor, criar memórias incríveis. E se não der certo?

Em um episódio que vi outro dia, Kevin, um dos três filhos de Jack e Rebecca se lembra de um dia quando era criança e que passou horas sendo questionado sobre a perda do óculos do irmão. A mãe pergunta várias vezes se ele pegou, ele afirma que não, passa um dia mais isolado e acorda, no meio da noite, olha para debaixo de uma cama e encontra o óculos. Feliz, Kevin corre pro quarto dos pais pra contar que achou o óculos do Randall e quando chega lá, os dois irmãos estão deitados na cama com os pais. Ele pega um travesseiro e se deita no chão, ao lado da cama. A cena se fecha, a gente sofre com ele, que afirma nunca ter sido o preferido nem do pai, nem da mãe. Mas a memória estava incompleta. A mãe, nesse mesmo dia, acorda, vê o filho no chão, pega uma coberta e se deita junto com ele, abraçada.

Ontem, em outro episódio, Randall e Kate lembram, de formas distintas, de um mesmo dia. A memória de Randall é um pai fora de controle, que quebrou um prato após um dia difícil e uma bagunça feita pelos filhos, na sala. Kate lembra do mesmo dia de forma carinhosa, com uma guerra de lantejoula que aconteceu entre os três no final do dia. Eles conversam sobre a ocasião, Kate se assusta porque lembra apenas do momento feliz e questiona suas memórias, sua sanidade, até. Randall sabe que o pai tinha defeitos, que era gente normal. Extraordinário, mas com defeitos.  

Kate tem uma visão mais cheia de fantasia do pai herói, perfeito. É lindo pensar na Cecília me vendo com os olhos de Kate, mas é importante que ela saiba que não sou perfeita, porque nenhuma mãe ou pai é. Ela não será, seus amigos não serão. Criar um filho é pra mim sempre desesperador. Tem dias em que quero brincar e abraçar o mundo, e transformar a vida da Cecília em um parque de diversões eterno. Em outros dias eu só quero que ela fique quietinha vendo o celular e me deixe ter uns minutos para ver TV, pra tomar um banho com calma.

Eu me sinto caminhando em estradas lindas e às vezes bem difíceis, com fé de que chegaremos a um lugar incrível no final do percurso. Muito empenho e trabalho mas nenhuma certeza de que estou no melhor caminho, de que fiz as melhores escolhas, de que estou conseguindo construir boas memórias. A cada passo, a certeza de que não há um caminho apenas, não há receita pronta. This is Us é abraço a alma e soco no estômago, o tempo todo, é do tipo que me faz pensar e ao mesmo tempo consola.

Sempre que chega até mim um elogio pela minha forma de exercer a maternidade eu me divido em duas. Uma parte de mim se sente muito orgulhosa da própria caminhada. A outra metade quer contar pra pessoa que eu não sou sempre incrível. Que de vez em quando eu grito alto, perco a paciência por uma bobagem, que às vezes eu choro e me sinto incapaz de criar um ser humano pro mundo. Maternar é caminhar sem GPS, amigos. Se eu fosse você, aproveitava o caminho.

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