Eu me lembro da primeira vez que a Cecília disse que me amava. Os bracinhos pequenos correndo na minha direção. Ela tinha um ano, eu acho. Era domingo e a gente estava na casa da vó. De vez em sempre eu me pego olhando pra Ceci quando ela dorme e eu não sei direito como é que pode o tempo estar passando tão depressa. Sinto saudades da mão que segurava minhas costas enquanto eu amamentava. O cantinho da boca sujo de leite quando ela adormecia no peito.

Eu sinto falta das palavras erradas: macarujá, matarrão, mutella. O rostinho dela a cada vez que experimentava um alimento novo. Sinto falta de quando meu colo ainda cabia o corpo inteiro, do cheirinho de bebê e das mãozinhas tão pequenas. E eu sei que eu vou sentir saudades dessa infância quando ela for adulta. Eu inventei a fada do ‘mamá’ quando ela largou o peito. Teve cartinha e presente. Eu sou coelha da páscoa e Papai Noel. Bebo leite na madrugada, deixo presentes na porta, faço patinhas de coelho no corredor do prédio usando um pincel e areia de gato molhada às 3h da madrugada.

No começo da pandemia a Cecília começou a pedir pra olhar as estrelas. A gente ainda morava em uma casa e ela corria pra calçada do condomínio pra deitar no chão e olhar pro céu. Ser mãe é sentir saudades todo dia. Eles vão crescendo, mudando, tendo novas necessidades. Quando ela fez três anos, viajamos nós duas para Gramado por 10 dias. Eu ainda me lembro do rostinho dela descobrindo cada coisa, descendo no escorregador de neve, entrando na casa do Papai Noel. No Instagram eu revejo os destaques dos stories e sinto saudades.

Mas existe também uma lista de saudades cheias de tabu, dessas que nem são permitidas dizer em voz alta. Eu chego em casa cansada, depois de um longo dia de trabalho e não consigo sentar no vaso. Não dá pra fazer um xixi sem interrupção (E além da filha, eu adotei uma gata). É nessa hora que ela quer colo, quer me contar uma coisa da escola, quer ficar ali só me fazendo companhia. De vez em quando eu perco a paciência e o Kadu já me olhou com olhar de reprovação. Eu passo as tardes com a Cecília, levo pra escola, para aulas extras e é lindo e maravilhoso, mas é cansativo também.

A maternidade é tão diferente do comercial de margarina. E quanto mais eu amo essa criança, mas eu entendo que a maternidade pode sufocar. E sufoca. De vez em quando a gente sente saudades de pegar um cinema no meio da semana sem se preocupar com a escola no dia seguinte, com a tarefa de casa. Eu sinto falta de maratonar uma série durante mais de 12 horas seguidas e de passar um dia inteiro à base de miojo e pipoca. A gente sente falta de transar sem se preocupar com o barulho, com a criança no quarto ao lado.

Eu sinto saudades de quando eu precisava cuidar menos de alguém e ao mesmo tempo que esse sentimento me invade eu sinto culpa e vergonha. A mãe que é “Mulher Maravilha” de vez em quando chora debaixo do chuveiro. Eu sinto saudades de um banho longo e demorado, despreocupado. Sinto saudades de quando a minha preocupação era dormir depois do almoço e assistir sessão da tarde. De quando o papel de mãe era o da minha e eu era só a filha. Saudades de quando eu não precisava escovar os dentes de uma criança que está quase adormecendo e que acabou de comer. De dirigir cantando em voz alta, sozinha.

Eu não sei qual é a sua lista de saudades e provavelmente se colocamos em uma balança, a lista “secreta e cheia de pecados” perde. Mas eu queria dizer que você pode, sabe. Pode sentir falta de quem você era antes de ser a mãe de alguém. Você pode se permitir de vez em quando um tempo pra você, só pra você, sem culpa e ser vergonha. Pode viajar sem a criança, sair sem a criança e não há nenhum egoísmo em pensar em si mesmo como prioridade. A gente também precisa de colo. Gente ferida fere. Catherine ferida grita e perde a paciência.

Eu sei que sou uma mãe incrível. Tenho absoluta certeza que eu sou a melhor mãe que eu posso ser. Ainda assim, talvez Cecília precise de terapia pra curar feridas que eu provoque até que ela seja adulta. Educar uma criança é esforço diário e lá no futuro a gente vai descobrir se deu tudo certo. Eu confio porque estou dando o meu melhor. E eu erro porque todo mundo vai errar. Você também vai, tenta ficar tranquila. 

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