Você precisa ser grato. Sim, essa frase é uma verdade, mas já parou pra pensar em quantos sentimentos você silencia quando coloca a gratidão como topo da vida? Cada vez que a gente aponta o dedo pra alguém dizendo que a pessoa deveria ser grata, nos colocamos em uma posição de escolher quais sentimentos o outro deve ter. Mas pera aí, quem é que te deu esse poder supremo? Gratidão é pesada demais. Importante, claro, mas abre espaço pra um pouco de reclamação aí vai, que a vida não tá fácil não: nem a sua, nem a do outro.

Outro dia no meio de uma birra da Cecília que eu nem me lembro o motivo, o pai repreendeu: “Gente, essa menina tem tudo”. Essa era uma forma de tentar entender a insatisfação de uma criança que tem uma vida incrível: passeia, brinca, tem roupas legais, brinquedos, carinho, tempo com a família, uma escola incrível. No fundo, ela estava cansada, a gente também (e muito), mas depois eu fiquei pensando em quantas vezes repreendi minhas próprias insatisfações na tentativa de “ser grata”.

No Instagram, me deparei essa semana com uma postagem da Elisama Santos e um print da série ‘This is Us’: “Claro que sou grato. Me dizem isso o quanto eu devia ser grato e como eu sou sortudo a vida toda. É como uma prisão, Kev. Ter que demonstrar gratidão o tempo todo. É sufocante”. Elisama aproveitou o post (incrível, inclusive), para falar sobre essa mania de tentar limitar os sentimentos ao que precisamos ou devíamos. Acontece, amigo, que na vida real é um bocado diferente.

Durante o período em que tentei engravidar pela segunda vez eu ouvi muitas pessoas que na tentativa de me ajudar ou me acalentar da frustração de não conseguir, tentaram ditar meus sentimentos. Uma frase em especial mexia muito comigo e foi dita por mil pessoas, incluindo médicos: “Pelo menos você já tem a Cecília”. Eu entendi, claro, que muitos casais não tinham um filho sequer, mas eu me senti silenciada. Não podia ficar chateada porque deveria me sentir grata pela filha que eu tenho. Hoje eu realmente me sinto muito grata por essa criança, o coração tá calmo e os planos mudaram, mas naquele momento eu queria sofrer, caramba.

O carro bate mas você precisa ser grato por não andar de ônibus. O mindinho do pé fica roxo depois de bater na mesa da sala, mas você precisa ser grato e isso é só uma bobagem. Você queria ir a um show, fazer uma viagem ou qualquer outra coisa, mas precisa ser grato porque tem um emprego e uma família. O preço dos alimentos está absurdo, mas você precisa ser grato porque ainda consegue comprar comida e tem gente que passa fome. É óbvio que a gente precisa furar a bolha, que tem sempre alguém em condições piores, que não dá pra viver e sobreviver olhando apenas para o próprio umbigo, mas gente, não dá também pra silenciar tantas reclamações, ainda mais nesse país, com esse governo. Reclama. Se quiser chora.

Na vida real a gente sente raiva, tristeza, inveja. Naquela vida que não cabe na Hashtag do Instagram ou no ‘bom dia’ dos stories, a gratidão nem sempre é o sentimento que vem primeiro. Eu sou grata, muito grata, mas eu também sei ficar brava, triste e choro como ninguém. Se precisar eu reclamo, e reclamo de novo. E se eu puder te dar uma dica: PERMITA-SE nem sempre ser grato. Dá sua birra aí e deixa a gratidão pro dia seguinte!

 

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