Saudade dos meus amigos foi e é, com certeza, uma das coisas mais difíceis dessa pandemia. Além do presidente, do preço da carne, das mortes que bateram recordes no país e do atraso das vacinas. Sim, tirando essas coisas e aquela lista infinita de dificuldades de ser brasileira neste momento, a saudade dos meus amigos me pega forte. Eu sempre achei que tinha sorte de ter muitos amigos: verdadeiros, especiais, importantes. Eu carrego amigos da infância, da adolescência, do ballet, da faculdade, dos trabalhos, da família. Mas um dia eu entendi que é mais que sorte. Amizade é sobre troca, é sobre entrega, é como outra relação qualquer e envolve reciprocidade. Pra ter amigo, é preciso ser amigo. Mas não é apenas sobre acertos, é sobre tentativas. Também não tem a ver com quantidade, mas sim eu tenho dezenas de amigos verdadeiros.

Eu tenho amigas que engravidaram quase junto comigo. Os filhos são escadinha, brincam juntos, brigam como irmãos, sentem saudades. Os maridos viraram amigos do meu. Não colegas, não um bando de gente que se encontra num evento. Viramos família. Desse tipo que se uma criança faz cocô a amiga limpa enquanto a outra brinca sentada no chão e os maridos preparam o almoço. Não do tipo que grita avisando que a criança precisa de ajuda. A gente sabe o que cada um come, bebe e que tipo de música faz sucesso entre o grupo. Cuidamos uns dos outros, nos preocupamos com o financeiro, com a saúde mental, com o trabalho e com a família.

Amigos não são iguais. Não demandam a mesma quantidade de atenção. Não se atraem pelos mesmos programas. Pelas mesmas bebidas, pelos mesmas viagens. Tem praia, museu e comida, um pra cada tipo, os três pra mim. Tenho amiga que topa fazer massinha caseira comigo e com as crianças. Outros amigos que gostam de sair pra comer e pagam caro por isso. Tenho um amigo que me manda mensagem de áudio no meio do dia só pra dizer que me ama e o quanto eu sou maravilhosa. Eu não sei se ele sabe, mas geralmente esses áudios chegam nos meus dias tristes, chegam como mensagens de Deus. Chegam como abraço e como afago.

Eu tenho amigos de religiões diferentes. Quando eu era criança ouvia na igreja católica que espiritismo era coisa do demônio. Por sorte, a gente cresce, amadurece e entende que a diferença é fundamental para uma vida coletiva e que o universo é maior que nosso campo de visão. Em uma amiga espírita eu encontrei a calma que eu precisava pros meus dias de desespero. Sabedoria, inteligência. Ela diz que se estressa, mas não levanta a voz. É doce e conforta. De vez em quando eu não me sinto muito digna da sua amizade porque eu desapareço, mas aí a gente se fala, se encontra, e eu sei que o espaço que ocupamos no coração uma da outra é imenso, é divino. Outra amiga evangélica me fez chorar com um story outro dia em que falava de Deus. Eu acredito na fé, nessa que une as pessoas.

Com cada amigo eu converso sobre uma coisa. Com alguns sobre várias. Pra uns sou mais ouvinte e pra outros eu peço mais colo. De vez em quando eu troco pra variar, para pagar amor com amor e pra oferecer cuidado a quem cuida de mim. Amizade é troca, mas é soma. Gente que fica feliz por você, que se alegra com seu apartamento novo, que te dá carona quando o seu carro quebra, que te oferece dinheiro se você precisar e que faz a comida que você gosta. Tenho amiga que passa na farmácia pra comprar o absorvente que eu esqueci e traz para o trabalho.

O que eu posso fazer por cada um deles? Retribuir. Porque amigos também precisam de colo. Porque ninguém consegue te oferecer o mundo se você não puder devolver um pouco de atenção, amor e respeito. Não sei se consigo sempre, mas eu tento. Não é só sobre acerto, é sobre tentativa! Eu vou ao salão arrumar o cabelo ou fazer a sobrancelha e me sinto saindo de uma missa de cura, de uma oração forte e cheia de fé. É que lá no salão eu fiz amigas. Comemoro as vitórias delas e a recíproca acontece. Tem dias que são difíceis, tem uma vida nem sempre fácil e minha atual receita é encher meu coração de afeto e de gente que me ama.

Tenho amigos de infância, da escola e outros que conheci ali, em 2019, mas que são incrivelmente importantes pra mim. Nem todo mundo vai estar presente em todos os momentos das nossas vidas, mas eu gosto da ideia de deixar as pessoas passarem, outras ficarem. Hoje, numa crise de choro, recebi um abraço que acalmou meu coração, de surpresa, inesperado. Eu acho que os amigos são presentes de Deus e que sim há um tanto de sorte quando eles chegam, mas é preciso cuidado para não deixá-los irem embora se ainda não for o momento. Eu não consigo fazer uma lista de nomes porque hoje são inúmeros aqui no meu coração, mas eu queria agradecer por fazerem a minha vida mais feliz, pelo colo e pelo socorro, pelo amor e pelo respeito. Aos poucos, eu abraço de novo cada um de vocês!