Atualizada às 18h01 do dia 18/05/2021O processo que investiga suposta participação do presidente do PP em Goiás e secretário de Transportes Metropolitanos do Estado de São Paulo, Alexandre Baldy, em casos de corrupção foi remetido ao Superior Tribunal de Justiça (STJ). A decisão foi tomada pelo juiz Wilson da Silva Dias, da 134ª Zona Eleitoral de Goiânia, porque o conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de Goiás (TCE-GO) Sebastião Tejota foi citado em delações. Filho do conselheiro e vice-governador de Goiás, Lincoln Tejota (Cidadania) também foi citado, mas indiretamente.As delações apontam suposta interferência de Baldy no governo de Goiás em 2014 para viabilizar pagamentos atrasados pleiteados pela Pró-Saúde, empresa que na época administrava o Hospital de Urgência da Região Sudoeste (Hurso), localizado em Santa Helena de Goiás. Na época, Baldy era filiado ao PSDB. De acordo com o juiz, os delatores Manoel Vicente Brasil Corrêa, Ricardo Brasil Corrêa e Edson Crivel Giorno (ex-gestores e ex-funcionário da Pró-Saúde) fizeram menção à presença e interferência de Sebastião Tejota em reuniões em que foram discutidas estas tratativas.Na decisão, assinada no dia 28 de abril deste ano, o juiz publicou trecho da delação de Giorno, em que ele cita almoço em 2014 com Baldy, quando o então candidato a deputado federal teria dito que era próximo ao governador de Goiás (Marconi Perillo, PSDB) e que “teria na mão” um conselheiro do TCE, em referência a Tejota. O processo tramita em segredo de Justiça, mas o POPULAR teve acesso à decisão.A reunião com a presença do conselheiro ocorreu, supostamente, no apartamento de Baldy em Goiânia, também em 2014. No encontro, segundo a delação, Sebastião disse que resolveria o “problema das contas da Pró-Saúde” em troca de doação para a campanha de Lincoln Tejota, que na época era candidato a deputado estadual pelo PSD. Giorno disse que a doação não foi oficial e afirma que participou de uma das entregas de dinheiro, uma mala com R$ 250 mil.O juiz também citou trecho da colaboração premiada do ex-diretor financeiro da Pro-Saúde Carlos Giraldes, que narrou suposto almoço com Giorno, Baldy, Sebastião e Lincoln Tejota, também em 2014 em Goiás. Em sua fala, o colaborador chama os dois últimos de “pai” e “irmão” de Baldy. O juiz afirma no documento que Carlos se refere, “ao que tudo indica”, a Sebastião e Lincoln, respectivamente.Após o almoço, o delator conta que todos foram a um gabinete de Baldy em um órgão público de Goiás que Carlos não soube identificar. Na oportunidade, “o pai de Baldy” teria mostrado a Girono “sala cheia de dinheiro em espécie”. O colaborador disse que desta vez o grupo não tratou de valores, mas “o pai” afirmou no almoço que a Pró-Saúde “deveria ajudar os candidatos que iriam se eleger e estar bem fortes no Governo”.Carlos afirmou que a empresa tinha interesse em fazer pagamentos para conseguir mais contratos no Estado de Goiás e facilidades na administração do Hurso, como o recebimento de valores de custeio. O delator cita o pagamento de R$ 340 mil para figura identificada como “intermédio TJ” (que depois Carlos supostamente descobriu ser o pai de Baldy), R$ 240 mil ao escritório de Rodrigo Dias (primo de Baldy) e R$ 38 mil identificados nos registros de caixa 2 da empresa como destinados a “TJ Goiás”.InvestigaçãoO processo em questão é relacionado à Operação Darnadários, desdobramento da Lava Jato, que levou à prisão de Baldy em agosto de 2020. Ele foi solto dois dias depois. O presidente do PP goiano foi acusado de receber cerca de R$ 1,6 milhão em propina das empresas Pró-Saúde e Vertude. Em setembro, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes remeteu o processo à Justiça Eleitoral de Goiás, que agora encaminhou o caso ao STJ.O pedido para que o processo seja analisado pelo STJ veio da própria de defesa de Baldy, sob o argumento de necessidade de elucidar a questão. O Ministério Público Eleitoral em Goiás já havia solicitado o arquivamento do suposto crime eleitoral por falta de elementos que indiquem a existência de caixa 2.Na decisão, o juiz Silva Dias afirma que o caso era para ser simples, mas “a Defesa pretende, ao que tudo indica, transformar em uma “hard case” (caso difícil). Tenho receio de um “tragic case” (caso trágico), se não voltar a simplicidade do caso”.A reportagem tentou contato com a Pró-Saúde e com a Vertude, mas não houve retorno até o fechamento desta edição. O POPULAR também solicitou posicionamento do TCE-GO sobre as citações relacionadas ao conselheiro Tejota, mas o tribunal informou apenas que não tem informações sobre estes fatos. Lincoln Tejota diz que não é próximo a BaldyVice-governador de Goiás, Lincoln Tejota afirma que teve conhecimento sobre a citação de seu nome nas delações por meio da imprensa e não precisa apresentar nenhum tipo de defesa, porque não é alvo do processo. Tejota disse que esteve “inúmeras vezes” com Alexandre Baldy porque ele era deputado federal, mas não tem relação próxima. O vice-governador também afirma que nunca encontrou com gestores da Pró-Saúde. A reportagem não conseguiu contato com Sebastião Tejota.A nota da defesa de Baldy foi assinada pelos advogados Pierpaolo Cruz Bottini, Alexandre Jobim, Tiago Rocha. Eles argumentam que o Ministério Público Eleitoral em Goiás reconheceu a ausência de provas envolvendo Baldy em suspeita de crime eleitoral e recomendou o arquivamento do inquérito. Os advogados sustentam que não existem provas de qualquer crime além da palavra dos delatores, “que, segunda a lei, não é suficiente para a abertura de uma ação penal”. “As delações são tão frágeis que acusam até o pai de Alexandre Baldy de estar numa reunião, quando anos antes ele já tinha sofrido dois AVCs e sido declarado incapaz pelo serviço público”, diz. DefesaNesta terça-feira (18), após a publicação da reportagem, a Pró-Saúde, por nota, informou que tem colaborado de forma irrestrita com as investigações e vem adotando ações para o fortalecimento de sua integridade institucional.Outra nota, encaminhada após a publicação pela assessoria de Sebastião Tejota, informa que o conselheiro recebeu pela imprensa a notícia de que seu nome foi citado na investigação que envolve Baldy. A nota ressalta que não existe qualquer processo em que Tejota figure como parte ou testemunha. “A conduta do conselheiro, registrada no TCE, foi a de constante fiscalização das Organizações Sociais que atuam em Goiás, julgando até pelo cancelamento de contratos abusivos e lesivos ao Estado.”O texto destaca o pedido do Ministério Público Eleitoral (MPE), que recomendou o arquivamento da investigação de caixa 2 por falta de elementos suficientes para a apuração de crime eleitoral. -Imagem (1.2252091)