Ao longo de quase três meses, a luta do prefeito de Goiânia, Maguito Vilela, contra a Covid-19 e suas complicações teve altos e baixos. O paciente passou por dias de consciência plena na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, e também de sedação profunda. Chegou a entrar em processo de reabilitação e fazer fisioterapia, mas seu corpo também batalhou contra inflamação e sangramento pulmonares.O POPULAR apurou que uma nova infecção por fungo e bactéria mudou, no dia 7 de janeiro, a trajetória de estabilidade no quadro clínico que era registrada desde a segunda quinzena de dezembro. O tratamento foi feito com antibióticos e drogas para controle da pressão arterial. No entanto, segundo médicos que acompanharam o caso, o corpo do prefeito não reagiu.Maguito morreu na UTI cercado pelos filhos Daniel, Vanessa, Miguel e Maria Beatriz, pela mulher, Flávia Teles, a nora Iara e o pneumologista Marcelo Rabahi, que é genro do prefeito e acompanhou o caso desde o diagnóstico. De acordo com relato de pessoas próximas ao prefeito, era por volta das 23h de terça-feira (12) quando a equipe médica e familiares compreenderam que o corpo de Maguito havia recebido toda medicação possível, mas não conseguia reagir. O grupo de familiares ficou ao lado Maguito, que estava sedado, durante a madrugada. O prefeito de Goiânia morreu às 4h10 de ontem, conforme informado pelo hospital em nota.A piora na saúde aconteceu após semanas de boas expectativas (entre 13 de dezembro e 6 de janeiro), com quadro estável e poucas mudanças de um dia para o outro. No tratamento que durou 84 dias, Maguito usou por três semanas o aparelho de oxigenação por membrana extracorpórea (Ecmo), que funciona como um pulmão artificial.Mas no início deste ano, Maguito chegou a precisar apenas do bipap, um ventilador portátil usado no processo de saída de pacientes da respiração com ajuda de aparelhos. No tempo em que passou desperto na UTI, Maguito se emocionou com a visita de familiares, a participação de aliados na campanha e o resultado da eleição.O emedebista voltou à ventilação controlada (quando o equipamento comanda a respiração) no dia 7 de janeiro, após a nova infecção. Maguito sofreu choque séptico, quadro infeccioso em que o corpo não consegue sustentar a pressão adequada. Os médicos, geralmente, tentam controlar o estado com medicamentos como drogas vasoativas.GravidadeA pneumologista do corpo clínico do Hospital Órion Fernanda Miranda explica que pacientes em longo período de internação podem ter maior dificuldade para superar infecções. “As bactérias hospitalares são mais agressivas. Aliado ao fato de a pessoa estar fragilizada, a situação fica muito grave. Isso acontece também em casos em que a pessoa estava apresentando quadro de melhora.” Geralmente, segundo Fernanda, pacientes com a Covid-19 passam de 10 a 15 dias na UTI. A médica explica que, em média, 50% dos pacientes com a doença que precisam da UTI vão a óbito.De acordo com o infectologista Boaventura Braz de Queiroz, as infecções bacterianas são, de modo geral, processo agudo e de agressão rápida, que mostram sinais em exames de imagens e de sangue. “Pacientes destes casos geralmente estão com o sistema imunológico fragilizados e os germes são altamente resistentes. Não depende apenas do antibiótico usado, depende também do paciente. De um lado tem a agressividade e alta resistência da bactéria. Do outro, está o paciente debilitado.”O chefe da unidade de cuidados intensivos e semi-intensivo adulto do Hospital das Clínicas (HC), Helder Takaoka, afirma que o fato de pacientes passarem muito tempo na UTI ligados a diversos aparelhos pode se tornar porta para infecções. Outro desafio dos médicos que trabalham na área, segundo ele, é saber se o paciente responderá ao tratamento. “Não existe variável para medir isso. A gente tenta. Mas mesmo ofertando tecnologia de última geração, a pessoa pode não responder.” O médico também faz um alerta. Até ontem, a ocupação nos leitos para Covid-19 do HC estava em 80%. “Não é hora de baixar a guarda.”Genética pode ter contribuídoA morte de Maguito Vilela, após quase três meses de internação em São Paulo, trouxe dúvidas sobre a possibilidade de a relação genética ter piorado o seu quadro de saúde. O prefeito licenciado de Goiânia perdeu no segundo semestre de 2020 duas irmãs para a Covid-19. Para a presidente da Sociedade Goiana de Infectologia, Christiane Reis Kobal, não há dúvidas sobre isso. “Fatores genéticos estão extremante relacionados a várias doenças infecciosas e não infecciosas. A resposta do hospedeiro, o paciente, está intimamente relacionada à herança genética herdada dos nossos pais”, afirma. Segundo a médica, o fato ajuda a explicar perfis de resposta frente ao agente infeccioso semelhante em várias famílias.O também infectologista Boaventura Braz Queiroz lembra que há vários estudos sobre o tema, mas nada conclusivo. “Por enquanto estamos no campo do empirismo, acreditamos que isso não foi por acaso, mas não dá para falar muito mais do que isso”, afirmou o médico sobre o fato de Maguito Vilela e suas duas irmãs não terem resistido à Covid-19. “Durante a evolução da doença traçamos um prognóstico para o paciente, e os detalhes vamos descobrindo no decorrer do tratamento, mas não há ainda como saber se há essa correlação genética.”Para a professora do Instituto de Biocências da Universidade de São Paulo e coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano e de Células Tronco (CEGH-CEL, Mayana Zatz, pessoas que desenvolvem formas graves de Covid-19 podem ter o chamado genes de risco, mas por outro lado há aquelas que se infectaram e não desenvolveram a doença, ou seja, seriam portadoras dos genes protetores. Pesquisadores do CEGH estão debruçados em estudos sobre a possibilidade dessa relaçãoEm dezembro último, a revista científica Nature, uma das mais importantes do mundo, publicou um estudo que revela a identificação de ao menos cinco sequências do código genético humano, o DNA, ligadas a casos graves de Covid-19. O grupo, liderado pelo médico intensivista Kenneth Baillie, da Universidade de Edimburgo, na Escócia, estudou 2.244 pacientes internados com Covid-19 em 208 unidades de terapia intensiva (UTIs) do Reino Unido, o que equivale a mais de 95% das UTIs do país.Desde o início da pandemia do coronavírus, cientistas de todo o mundo vêm se dedicando a estudos sobre o tema. Várias pesquisas já foram divulgadas em revistas científicas comprovando a relação entre sintomas graves de Covid-19 e à predisposição genética. “Não é uma ideia nova. A partir de estudos comparando gêmeos univitelinos e bivitelinos, sabemos que a suscetibilidade a grandes doenças infecciosas no mundo, como tuberculose, hepatite ou malária, varia em parte de acordo com as características genéticas”, disse à BBC Mundo Stephen Chapman, especialista em doenças respiratórias e pesquisador em Genética Humana na Universidade de Oxford, Reino Unido.-Imagem (1.2180737)