“Fiquem aqui porque ele está partindo; e vai ser rápido”, disse a médica Carmen Barbas, pneumologista do Hospital Albert Einstein à família de Maguito Vilela por volta das 22 horas de terça-feira (12). “Só que não foi rápido, ele ficou segurando”, relata o filho de Maguito, Daniel Vilela, sobre os últimos momentos ao lado do pai. Daniel falou com exclusividade ao POPULAR no Palácio das Esmeraldas, pouco antes de início do velório. Como foram os últimos momentos ao lado do seu pai?Estávamos todos juntos, todos os filhos, e eu só posso dizer que amei muito e fui muito amado por ele (chora). Meu sentimento de filho me fez voltar lá porque eu tinha ido até domingo. Chegou a vê-lo com algum nível de consciência?Não. Desde a semana passada ele, com essa bactéria, já estava completamente sedado. Há informações de que vocês foram avisados pela equipe médica que não havia mais recurso. Como foi isso?Sim. Teve essa bactéria e os antibióticos não surtiam efeito. Foram aumentando a dose, tentando com antibióticos mais potentes, mas ele não reagia. E não se identificava também qual a bactéria que estava causando essa instabilidade dele. Aí ontem (terça-feira), a médica entrou com um mais forte, geral, para cobrir infecção no corpo todo. Já haviam feito umas três tomografias e não achavam nada. Era a última cartada que tinham. Mas na segunda-feira à noite, a Flávia já estava muito preocupada porque as drogas vasoativas já estavam muito altas. Aí chega a um limite, não é?É, a gente nem sabia desse limite. Sabíamos que estava alta em comparação aos outros dias das outras semanas. Aí resolvi ir para lá no outro dia junto com o Marcelo (Rabahi). E foi a gente chegar lá e começou a cair a pressão. Parece que estava esperando reunir todo mundo. Só que ainda tinha uma margem pra crescer da droga. Aí chegamos umas 17h30, até umas 20h30, deu uma estabilizada. Aí eu ia dormir lá com ele e todo o resto ia para o hotel. Nós descemos para comer e eu avisei que ia ao hotel tomar banho para voltar. E aí a dra. Carmen chegou lá, quando subimos ao quarto ele já estava tendo choque. Era umas 22 horas. Aí ela falou: “Vocês fiquem aqui que ele está partindo; e vai ser rápido”. E aí ficamos lá com ele. Só que não foi rápido. Ele ficou segurando até 4 horas da manhã. A saturação dele estava 95 e despencou para 20. Em um minuto ele elevou para 90 de novo. Ou seja, foi uma reação dele. E a pressão também. Você via que era ele que estava segurando a pressão porque aí chegou ao limite da droga e ele ficou até 4h10 em ponto e a gente ali do lado dele, e caindo a pressão, caindo a frequência cardíaca. E como vocês estavam?Rezando, agradecendo a ele, todo mundo fazendo seus agradecimentos e suas orações. Ficamos lá acompanhando até 4h10, que foi o horário que a pressão foi a zero. Ele sentiu dor?Nada, nada, nada. Um pouquinho antes eu estava sentado no sofá e me levantei para pegar na mão dele de novo. E aí eu vi que ele não estava mais lá. Ainda tinha pressão, baixa, mas não tinha zerado. Eu peguei no rosto dele e vi que não estava mais lá. E falei: ele já partiu. E depois disso, ainda foram mais uns 10, 20 minutos. O que você disse a ele?Eu agradeci a oportunidade de ter tido um pai (chora) tão bom para mim como ele foi. Impecável. Um pai que eu não tenho uma vírgula a falar dele. Agradeci por tudo, disse que o amava, que íamos ficar bem aqui, que ele podia ficar em paz. Apesar de um sentimento de que ele estava brigando e queria ficar. E falei que eu o amei muito e era realizado porque ele também me amou muito. E todo mundo ficou rezando, agradecendo, aproveitando a oportunidade para essa despedida. Você escreveu nas redes sociais que ficou pensando que algo poderia ser diferente. O que pensou?Eu queria que não tivesse acontecido isso, né. Porque de todos esses 80 dias, só agora nessa infecção que eu achei de fato que poderia ter um risco de ele não voltar. Quando eu cheguei lá na quinta-feira, eu não sabia que ele estava sedado. Ele estava bom até o dia anterior, mandando as meninas parar de falar alto porque estava vendo jogo de futebol. Era a tal da infecção. Aí sedaram. Como o pulmão dele estava bom, bem expandido, ele acordado brigava com o ventilador. Não sincronizava. Ele respirava, e o ventilador respirava e ficava sem sintonia. Aí sedava para ele sincronizar e relaxar. Então a princípio, a sedação era para isso, para deixar confortável. Eu pensei que entraria com antibiótico e em dois dias no máximo ele estaria reagindo. Porque da outra infecção que ele teve, no outro dia ele reagiu. Mas, conversando com os médicos, a gente acha é que na verdade o corpo já não tinha mais força. E aí você começa a pensar... Ele estava muito magro. O bracinho dele estava muito, muito fino. As pernas. Ele tinha trombosado uma perna, mas tinha recuperado. Estava com fluxo normal. Então vi que ele estava muito fraco. Muito, muito fraco. Chegou a pensar que era melhor aliviar?Não, não cheguei a pensar. A gente sempre fica com esperança. E depois que a dra. Carmen falou que estava chegando o fim, a gente ainda estava lá... E como ele segurava a pressão, a gente ficava monitorando os painéis - ficamos experts naqueles painéis lá. E o Marcelo, que é médico e sabia que a situação não tinha mais controle, ficava mais calado. E a gente perguntando a ele se não dava para fazer as coisas. Aí desligaram a diálise. Aí ele começou a inchar um pouquinho a perna e eu perguntei ao Marcelo se dava para ligar a diálise de novo. Ele falou que não dava senão a pressão desabava.Você havia comentado, antes dessa infecção, que os médicos cogitavam até a possibilidade de ele passar o aniversário em casa (24 de janeiro Maguito faria 72 anos). É, foi nessa última semana que ele estava tão bem que pedia muito para ir embora. Ele falava que estava com muita dor, que queria embora. Dizia: “me leva embora, me ajuda”. E o Marcelo tentando fazer um carinho para ele falou dessa possibilidade. Mas a situação era muito positiva mesmo. Eu tenho vídeo aqui mostrando ele cortando o cabelo sentado. Então a gente estava com expectativa muito positiva. Mas aí veio essa infecção. Desde o começo todos falavam que havia três tipos de intercorrência que não poderiam ocorrer. Ele teve as três. Trombose, sangramento e infecção. No começo, o corpo sustenta, tem força. Ele tinha muita reserva, né? Então, ele era uma pessoa que se cuidava muito, não é?Muita, muita reserva. No começo inclusive todo mundo achava, e inclusive os médicos, que ele ia sair bem porque tem muita reserva. Pulmão bom, bebe moderadamente, fumou há 50 anos. Mas chega uma hora que essa reserva esgota. Ele conseguiu segurar uma infecção lá no começo, conseguiu segurar um sangramento gigante. Tirou um litro de sangue coagulado naquele sangramento. E passou bem. Depois disso, os médicos falavam: “seu pai é muito forte”. A gente sempre achava que essa força e essa reserva dele iam superando. Você havia comentado que parte das enfermeiras, da equipe do hospital, comemorou a vitória dele na eleição, e comemorava os avanços. Como foi ontem?Lá tem muita troca de enfermeira e me parece que as que estavam no começo estavam de férias. Na hora que saímos de lá às 4h30, tinha só uma enfermeira dessa primeira etapa que estava lá e nos abraçou e falou: “É o melhor para ele; ele estava sofrendo demais”. E nós saímos na recepção e encontramos o enfermeiro que fez o transporte dele de Goiânia para São Paulo. Ele lamentou também. Acha que ele estava sofrendo demais mesmo?Não sou médico para saber. Não sei se meu sentimento de filho era não querer enxergar o sofrimento dele e querer que ele reagisse e saísse de lá. Mas depois que passa, a gente começa a pensar e ver que de fato ele estava sofrendo. Foi comprovada alguma predisposição genética na família, considerando as duas irmãs que morreram antes dele?Não. Parece que precisa fazer um estudo genético para isso e não sei se foi feito ou se vai ser feito. Mas a dra. Carmen falou que a defesa em relação ao coronavírus tem a ver com a questão genética. O que pensa sobre o coronavírus agora, o anúncio de vacinas e tudo que se passou desde o início da pandemia?O que a gente mais quer é imunizar todo mundo o mais rápido com essas vacinas. Está descontrolada essa contaminação. O Marcelo contou que tem hospital aqui abarrotado e muita gente do Norte vindo para cá. Metade do hospital é de gente de lá. E os jovens estão saindo e levando para dentro de casa, contaminando pais, avós. Difícil. E sobre a Prefeitura de Goiânia, acredita que o prefeito Rogério Cruz vai cumprir os compromissos assumidos por Maguito?Vai sim. Isso é um projeto que era liderado por Maguito e agora vai ser liderado pelo Rogério, com esse time aí que vai fazer um grande trabalho por Goiânia. Você vai continuar participando?Não, eu vou continuar ajudando.