Pesquisador e professor de Políticas Públicas da Universidade de São Paulo (USP), Pablo Ortellado afirma que, em relação a 2018, caiu o antipetismo entre as pessoas que votaram no presidente Jair Bolsonaro (PL) na eleição passada. A constatação foi informada por ele em entrevista à jornalista Cileide Alves, no programa Chega pra Cá, desta terça-feira (26). 

A conclusão é com base em uma pesquisa realizada pelo professor, em parceria com o colega Márcio Moreto, professor de Sistemas de Informação da USP. Foram 2.038 entrevistados, entre os dias 7 e 14 de maio, em São Paulo. Os resultados mostram o que pensam três subgrupos de eleitores: os bolsonaristas convictos; os bolsonaristas arrependidos e os não bolsonaristas.

O professor liderou uma pesquisa semelhante no início do mandato de Bolsonaro e, segundo ele, a principal diferença entre os dois levantamentos é a queda do antipetismo. Por outro lado, foi possível perceber que aqueles que continuam apoiando o presidente ainda defendem pautas conservadoras e desconfiavam das elites culturais — leia-se professores, jornalistas e artistas.

"A gente viu, em 2018 e agora, que a identidade mais forte é a de conservador. Tem a ver com o fenômeno das guerras culturais e com a ascensão dessas pautas morais no debate público. A identidade antipetista, que foi muito relevante para o bolsonarismo em 2018, caiu bastante e eu acho que ela explica esses movimentos eleitorais que a gente está vendo agora, com a ascensão do ex-presidente Lula na intenção de votos", afirma o pesquisador. 

Ortellado explica que a pesquisa foi feita, das duas vezes, por meio da apresentação de frases aos eleitores, que tinham que responder se concordavam ou não. "E a gente também media identidade política: se a pessoa era de esquerda ou direita, se era conservadora ou não, e se ela era antipetista ou não", detalha. O professor destaca que tem ficado cada vez mais forte a autoidentificação política, o que tem gerado a "incapacidade de aceitar o adversário político". 

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Para o professor, essa queda do antipetismo também revela o perfil dos bolsonaristas arrependidos, que são aqueles que votaram no presidente em 2018 e não querem repetir o voto em 2022. Segundo ele, essas são pessoas que, apesar de também serem conservadoras como os bolsonaristas convictos, têm um perfil mais moderado. 

"A gente tinha umas afirmações que perguntavam, por exemplo, se os entrevistados concordavam com a afirmação de que todos os partidos são corruptos, mas o PT era pior; se a incompetência do PT afundou o país. E aí, sim, houve uma mudança muito grande. Entre os bolsonaristas arrependidos despencou a adesão a essas frases", disse.

O professor analisa que o Brasil continua conservador como em 2018, no fenômeno que elegeu o atual presidente, mas, agora, "a resistência ao PT caiu". "Isso fez com que um pedaço dos antigos eleitores do Bolsonaro estejam soltos. Uma parte vai votar no Lula ou nos outros candidatos, outra ainda não decidiu e uma parte vai votar nulo. E é esse fenômeno que fez com que o Bolsonaro caísse e o presidente Lula saltasse à frente", acrescenta.

Ortellado afirma que é preciso, agora, entender porque ruiu a resistência ao PT entre parte dos eleitores de 2018 de Bolsonaro. "Pode ser porque os escândalos de corrupção ficaram para trás, passou já bastante tempo, pode ser pelo fato de que escândalos de corrupção afetaram o governo Bolsonaro. E pode ser também porque a saudade dos tempos de bonança nos governos petistas atenua o antipetismo. Acredito que seja uma combinação desses fatores", pondera.

Ele lembra que os anos de governo do atual presidente têm sido difíceis. "Anos de pandemia, de desemprego, de crescimento muito baixo ou negativo. O Bolsonaro fez um governo muito polêmico, tem poucas realizações no campo das políticas públicas", exemplifica.

Conservadorismo
Para Ortellado, do ponto de vista estratégico, Bolsonaro está no caminho certo ao decidir continuar com o discurso voltado para a pauta dos costumes, considerando que seu eleitorado continua conservador. "O eleitor que ele perdeu segue conservador. Então ele está tentando reativar esse conservadorismo, o medo e a aversão ao PT para tentar resgatar esse eleitor e tentar repetir o desempenho de 2018", analisa.

Da mesma maneira, ele pondera que faz sentido a estratégia do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de não entrar na pauta dos costumes. "De bater só na memória da bonança, no desempenho econômico, nos tempos de prosperidade, no seu bom desempenho na construção de políticas públicas", exemplifica.

Na sua análise, os candidatos estão jogando em vias separadas: Bolsonaro na pauta dos costumes e Lula na pauta da política social e econômica. "Eles estão fazendo apelos diferentes para o eleitor."

A permanente desconfiança das elites culturais, por parte do bolsonarismo, em 2018 e agora, é um reflexo do cenário mundial de onda populista, segundo análise de Ortellado. "Eles buscam fazer essa transformação diretamente rompendo por meio de um conflito aberto com as elites que eles estão prometendo derrotar."