Em plano elaborado pelo governo de Goiás para melhorias na distribuição de energia, o Estado apontou necessidade de investimento pelo menos quatro vezes maior do que a Enel Distribuição havia se disposto a fazer em dois anos. Foi com base nesse relatório, ao qual O POPULAR teve acesso, que houve negociação com a distribuidora, intermediada pelo Ministério de Minas e Energia (MME) e Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), nas últimas semanas. O resultado da última reunião em Brasília, ocorrida na quinta-feira (8), ainda será anunciado em evento nos próximos dias com o consenso e as ações que serão realizadas. Segundo o governo estadual, houve progresso. As demandas apontadas para melhorias da oferta e qualidade no serviço de distribuição devem ser atendidas. Ao menos em um porcentual maior do que o plano emergencial – que está em andamento e é fiscalizado pela Aneel – iria contemplar até 2020.Entre o que o governo goiano defendeu como necessário para o Estado, está o reforço em subestações para possibilitar a liberação de carga. Seriam necessárias compensações em 61 cidades até 2023, conforme o relatório informa. Os maiores déficits estão nas regiões de Goiânia, Cristalina, Anápolis e Trindade. A demanda reprimida envolve negativas para novas conexões de energia e aumento de carga, que afetam áreas mais produtivas que concentram indústrias. Compensação A estratégia proposta inicialmente pela equipe do governo goiano seria uma compensação reativa no sistema para maior liberação de carga. Uma ação de curto prazo que possibilitará novas ligações de energia sem a troca de transformadores que se encontram em sobrecarga. A explicação técnica é de que existem subestações que não entregam toda a capacidade porque há corrente elétrica não aproveitada, há déficit reativo. Isso acontece especialmente próximo a indústrias. Para corrigir o problema, é preciso balancear os efeitos e colocar banco de capacitores, que elimina uma espécie de corrente fantasma e faz com que toda a capacidade do sistema passe a ficar disponível para o cliente. Uma das vantagens dessa ação, como defendido pelo secretário de Desenvolvimento e Inovação de Goiás, Adriano da Rocha Lima, é que o investimento necessário é mais baixo e seria fácil implantar. Por isso, o Estado teria “brigado” pela proposta.Ao todo, conforme estudo feito pelo governo, o déficit seria de 600 megavolt-ampère-reativo (MVAr). Porém, no plano emergencial em curso, a Enel iria compensar 120 MVAr até 2020. Assim, a sugestão do Estado foi para que a distribuidora atendesse 456 MVAr este ano. O MME indicou que já havia a obrigação de 156 MVAr imediatos e mais 132 MVAr até o ano que vem. Depois dessa informação, o valor passou a ser o novo pleito do Estado nas discussões. Isso favoreceria a liberação de carga em várias cidades. A compensação reativa em todas as subestações de Goiânia possibilitaria, por exemplo, o ganho de 5 megawatt (MW) em cada subestação, soma de 70 MW somente ao aproveitar instalações existentes. Outros apontamentos realizados são com relação a obras imediatas como na subestação Goiânia Leste. Vai e vemDurante as negociações para destravar a distribuição de energia, o governo de Ronaldo Caiado (DEM) contrapôs diversos pontos do plano emergencial. O principal argumento é de que não havia ações de curto prazo para os problemas locais e o apresentado seria insuficiente. Há pressa do governo, que quer dar retorno para que o setor produtivo possa investir no Estado. Ações estruturais como a construção de subestações, que leva mais de um ano, não resolveriam as demandas, segundo o secretário Adriano. Mas agora o cenário mudou. O acordo fechado depois de diversas pressões, que tiveram início quando Caiado assumiu o governo, levou a Enel a antecipar investimentos. A empresa do grupo italiano não revela valores. Qual a participação do Estado nesse processo ainda não foi informada. O governo chegou a cogitar fazer os investimentos na distribuição, o que esbarra em questão de regulação do setor elétrico e dependeria da realização de empréstimo via Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) de até R$ 2 bilhões a Celg Geração e Transmissão (Celg GT) com aval da União. A empresa estatal ainda estaria envolvida nesse novo plano conjunto, conforme informou o secretário Adriano. Quando Caiado iniciou o diálogo com a União para cobrar da Enel melhorias, o primeiro retorno foi o plano emergencial apresentado em fevereiro e uma sequência de fiscalizações da Aneel. Como não sentiu que a demanda foi atendida, o governador solicitou medidas mais “enérgicas”. Chegou a se referir à possibilidade de cassação da concessão e reversão da privatização da distribuidora – a antiga Celg D foi arrematada pela Enel em 2016 por R$ 2,2 bilhões. Como uma das medidas mais sérias, o processo não seria simples e não teria sido sustentado como viável pelo governo federal. O que deu início às recentes tratativas.