Lançado pelo PSB ao governo, José Eliton diz que se colocou à disposição do partido para combater o que chama de práticas “de viés coronelista”, associando os governos de Ronaldo Caiado (UB) e Jair Bolsonaro (PL). Apesar disso, garante que sua eventual candidatura depende de consenso com outros partidos, entre eles o PT, e que estará na campanha, mesmo que não esteja na chapa.

O sr. era, até o fim de março, presidente do PSDB em Goiás, partido que atua no País inteiro como de direita. Agora, está no PSB e pode encabeçar chapa composta por partidos de esquerda e centro-esquerda em apoio à pré-candidatura do ex-presidente Lula. Acredita que o eleitor consegue assimilar essa mudança de postura?

É uma posição natural, pois há muito defendo que este é um momento importante da história brasileira. Teremos em contraposição dois projetos: um autoritário, de viés coronelista, que não olha para a inclusão social, que permitiu a volta da inflação e que não tem programas de desenvolvimento regional; e um projeto democrático, que respeita as instituições e garante a inclusão social, o controle da inflação e, consequentemente, uma vida melhor à população. Esse é o momento de unir todas as forças políticas progressistas do País, e o PSDB nasceu como um partido de centro-esquerda. Ele nasce com a égide da ideologia social democrata, historicamente voltado ao equilíbrio entre as regras de mercado e políticas de inclusão social. Mais do que isso, em 2018, quando o meu candidato no primeiro turno, Geraldo Alckmin, não foi ao segundo turno, tínhamos duas alternativas, Fernando Haddad e Jair Bolsonaro, e declarei o meu voto em Haddad. Hoje, tenho convicção de que tomei a decisão correta dada a situação que o Brasil vive e, portanto, esse movimento foi natural, mesmo porque vem casado do exemplo dado pelo próprio presidente Lula e por Geraldo Alckmin, no sentido de buscar unidade em favor do Brasil, suplantando eventuais diferenças, e evidentemente elas existem, em favor de um projeto maior de nação.

A aliança com PT, PCdoB e PV pode se concretizar, mas o PSOL se afastou sob o argumento de que sua presença inviabiliza a aliança, pelo histórico do PSDB e pelas bandeiras que o sr. defende, como privatizações. PCB também. Mas mesmo o PT tem visões diferentes sobre esses temas. Como deve ser a formação de um plano de governo com visões tão distintas?

Respeitamos todas as forças políticas. Os partidos a que você fez referência são partidos muito carregados em componentes ideológicos, o que é louvável e respeitamos suas posições. É claro que a decisão deles de não ampliar o debate, não discutir com os diversos partidos, não se funda apenas em relação ao meu nome, mesmo porque, se voltarmos a 2018, o PSOL também não estava com o PT naquela eleição. O PCB também não está apoiando o presidente Lula nesta eleição, ou seja, é uma falácia esse tipo de justificativa. Então, acho importante respeitar. Se for possível abrir o diálogo, nós o faremos, conversando com maturidade sobre temas importantes que impactam a vida do brasileiro. O que queremos é ampliar as forças políticas de apoio ao presidente Lula. Foi nesse objetivo que me propus a ajudá-los em Goiás. E, quando falo frente ampla, é (no sentido de) buscar outros partidos que queiram dialogar, e buscar diversos segmentos da sociedade. Não adianta apenas falar à esquerda; é preciso falar à esquerda, ao centro e à direita. Por isso conversei com o professor Wolmir Amado (PT) e disse que o plano de governo tem que ter duas premissas: ser exequível, a partir do diagnóstico econômico do estado; e, claro, falar a toda a sociedade.

O sr. adotou um discurso de “tolerância zero” na segurança pública, quando foi secretário, em 2016, um discurso muito semelhante ao do atual governador Ronaldo Caiado (UB), e que se afasta do que é defendido pelo PT. Como lidar com isso?

Com respeito. Na segurança pública, (o atual governo) deu sequência a alguns programas, diferentemente de outras áreas em que encerrou o que vinha dando certo, a exemplo da área social em que praticamente acabou com todos os programas que criamos e que foram importantíssimos para o avanço da sociedade goiana. Nós vamos rever essas questões para bem servir a população. Desde 2016, observamos a diminuição dos indicadores de criminalidade em Goiás, graças a uma visão de enfrentamento. Essa visão não exclui a atenção irrestrita ao estado democrático de direito, às responsabilidades individuais, à busca da humanidade e à busca por uma segurança pública que atenda aos anseios da sociedade, sem ser inquisitorial.

Goiás vive um problema de violência policial. Pretende rever a política atual?

Essa é uma questão pontual e que deve ser avaliada caso a caso pelas autoridades competentes. O que vamos fazer é obedecer especificamente o que a lei autoriza. Não temos que discutir o que a lei já determina.

O sr. foi presidente da antiga Celg e fazia parte do governo, quando a empresa foi comprada pela Enel. A forma da privatização ainda é criticada e, agora, a Enel deve vender a empresa. A gestão da qual o sr. fez parte poderia ter feito algo diferente?

Foi feito o possível naquele momento, e eu faria novamente porque, em 2011, quando assumi a presidência da Celg, a empresa já tinha uma situação difícil, do ponto de vista de economia interna, muito devido à venda da (usina de) Cachoeira Dourada. A Celg perdeu grande parte da sua capacidade de realização de investimentos, especificamente na área de distribuição. Nós preservamos a área de geração e transmissão como uma empresa sólida e sem dívidas (Celg GT), tanto que o atual governo privatizou essa área com resultados muito positivos. E nós não fizemos, naquele momento, a privatização da Celg, mas o acordo que transferiu 51% das ações à União. Posteriormente, a então presidente Dilma (Rousseff) incluiu a Celg no programa de desestatização do governo federal, e aí foi feita a privatização.

Qual deve ser o mote da campanha, caso seja candidato?

Recolocar Goiás como um estado que tenha a maior rede de proteção social do Brasil. As primeiras ações que eventualmente tomarei, se for candidato e eleito for, serão voltadas à reestruturação de uma rede de proteção social que foi simplesmente acabada pelo atual governo. Programas como o Renda Cidadã, que pode se aliar ao Auxílio Brasil, de modo a garantir aos mais humildes a condição de subsistência e sobrevivência. Comida na mesa. Hoje, quem vai ao açougue comprar um quilo de acém é mais de R$ 30; a pessoa que vai abastecer um carro, um motorista de Uber, um taxista, é R$ 8 um litro de combustível; o botijão de gás é R$ 130. Isso penaliza demais as pessoas mais pobres. Além disso, a geração de oportunidades. O atual governo praticamente acabou com a universalização do ensino superior que estávamos tentando construir, a partir do programa UEG em Rede, diminuiu e mudou o nome do Bolsa Universitária, que em nosso período atendeu a mais de 200 mil jovens goianos. Essa é uma agenda primeira. É importante tratar da infraestrutura. Estamos vendo as estradas e rodovias goianas no estado lamentável. Não foi feita a manutenção da forma como deveria ter sido feita, não houve planejamento nessa área. Temos que retomar uma agenda de reconstrução das rodovias já existentes e de construção de novas rodovias. As demandas do estado são muito grandes e nesse governo, praticamente nada foi construído.

O governo entrou no Regime de Recuperação Fiscal sob o discurso de que recebeu o estado “quebrado”. Se eleito, pretende mudar algo em relação a isso?

As políticas bolsonaristas se repetem no governo do estado. A primeira delas é a distribuição de mentiras, olhando apenas pelo retrovisor e tentando disfarçar a sua incompetência no ataque aos adversários. Só em 2018, paguei mais de R$ 2 bilhões da dívida consolidada do estado. Ao longo dos últimos 20 anos, essa dívida diminuiu de três arrecadações para pagar a dívida para, em 2018, menos de uma arrecadação. O atual governador deixou, primeiro por força de liminar e depois por força de adesão ao regime, de pagar volumes estratosféricos da dívida do estado. O que vai acontecer com esse recurso que deixou de ser pago? Alguém vai pagar um dia. Esse alguém é a sociedade, o cidadão. Por isso, se a legislação permitir, nos pontos que eventualmente for possível renegociar com o Ministério da Economia, com a Secretaria do Tesouro Nacional, haveremos de fazer.

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