Autor de sucessivas denúncias contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), encaminhadas ao Supremo Tribunal Federal e à Procuradoria Geral da República, o deputado federal e presidente do PSB em Goiás, Elias Vaz, afirma que o partido seguirá no Estado a diretriz de oposição ao governo federal. Isso embora uma das principais lideranças locais, o presidente da Assembleia Legislativa, Lissauer Vieira, apoie o governador Ronaldo Caiado (DEM), aliado de Bolsonaro. Entre as denúncias, estão gastos de mais de R$ 4,2 milhões do presidente da República nas férias de fim de ano e no carnaval, incitação à animosidade entre as Forças Armadas e governadores e prefeitos, não usar máscara e causar aglomeração na pandemia. Outro pedido de investigação refere-se a licitações das Forças Armadas para compra de uísque, cerveja e picanha. Elias explica que não está definida aliança no caso de candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à Presidência e sinaliza chance de aderir a um projeto “mais amplo que a esquerda”. Sobre as eleições de 2022. Uma das lideranças do PSB em Goiás, o presidente da Assembleia Legislativa, Lissauer Vieira, é próximo ao governador Ronaldo Caiado (DEM), que busca a reeleição. É possível aliança, apesar de Caiado apoiar o governo de Bolsonaro?Tenho dialogado com o deputado Lissauer, ele não esconde que tem aproximação com o governo de Caiado, isso fica muito claro. Mas tenho dito de forma pública que o PSB em Goiás não caminhará com quem estiver dando sustentação ao governo Bolsonaro. Está muito cedo para dizer isso hoje, quem vai estar com Bolsonaro nas eleições. Mas precisamos entender que é muito grave a situação que o País está passando, temos um governo que flerta com o fascismo, é negacionista, não respeita a vida, não respeita os trabalhadores, então esse governo tem de ser combatido. Tendo isso como referência, queremos discutir com várias forças em Goiás. Conversaremos com PT, PDT, MDB, com o próprio governo estadual. Teremos diálogo com vários segmentos partidários. No plano nacional, o partido deve apoiar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que já admitiu candidatura à Presidência da República?Ainda não existe essa definição. É preciso ter uma candidatura que tenha condições de derrotar esse campo fascista, de ultradireita que tem se instalado no país. É muito importante uma vitória eleitoral no ano que vem. O nome do ex-presidente Lula está sendo colocado, tem o Ciro Gomes (PDT) e há possibilidade de o PSB lançar candidatura. Importante é que todos têm uma preocupação no campo civilizatório, porque o que está se apresentando hoje no país é um posição tão absurda que nega a ciência, que nega aspetos básicos de convivência civilizada, então é preciso entender que a articulação nessa disputa presidencial pode ser mais ampla que a esquerda para derrotar esse campo extremista. O deputado federal e líder da minoria na Câmara, Marcelo Freixo, deixou o PSOL e seguirá para o PSB, com foco na disputa ao governo do Rio de Janeiro e com apoio do PT. Nacionalmente, essa filiação tende a influenciar nas alianças do partido?A filiação de Marcelo Freixo engrandecerá muito o nosso partido. Ele tem defendido de forma pública ao apoio à candidatura à presidência do Lula. Agora, ele sabe que uma decisão desse porte dentro do partido terá de ser de forma coletiva. Em abril, o senhor enviou denúncia ao secretário Estadual de Saúde de Goiás, Ismael Alexandrino Júnior, para que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) fosse multado por não cumprir o uso obrigatório de máscara em Goianápolis. O que foi decidido?O presidente Bolsonaro tem se comportado de forma irresponsável e negacionista. Como chefe de Estado, ele deveria ser o primeiro a cumprir os protocolos definidos pelo próprio Ministério da Saúde, usar máscara, não provocar aglomerações, usar álcool gel, procedimentos básicos que o presidente da República teria de adotar. Ele veio várias vezes a Goiás, e faz questão de não respeitar esses protocolos. Então, numa dessas vezes, fiz uma representação junto ao governo estadual, mas a Secretaria Estadual de Saúde disse que não era responsabilidade dela e que a Prefeitura de Goianápolis é que deveria fazer essa autuação. Nós não concordamos, esperei mais de 30 dias e nesta semana fiz uma representação junto ao Ministério Público contra o secretário de Saúde por estar prevaricando ao não cumprir a lei, ele tem que entender que a lei é para todos. O senhor revelou que viagem do presidente para São Francisco do Sul, no litoral de Santa Catarina, durante o carnaval deste ano, custou aos cofres públicos R$ 1.790.003,92. Antes já havia descoberto que as férias do presidente, entre 18 de dezembro de 2020 e 5 de janeiro deste ano, custaram aos cofres públicos o total de R$ 2.452.586,11. Tais gastos são legais?Essa atitude do presidente já seria imoral se nós não estivéssemos vivendo uma crise sanitária, uma crise econômica que é o reflexo dessa pandemia. E no meio de toda essa situação o ele encontra tempo para fazer farra com dinheiro público. Se nós pegarmos o momento em que ele tira suas férias no final do ano passado e gasta quase R$ 2,5 milhões, foi quando ele cortou o auxílio emergencial dizendo que não tinha dinheiro para pagar. Depois, quando volta o auxílio, é com apenas R$ 250 por mês, dizendo que não tinha dinheiro suficiente para manter o valor de R$ 600. Quer dizer, não tem dinheiro para o auxílio emergencial, mas tem para bancar uma farra do presidente. Isso vai desmascarando também o aspecto de simplicidade que ele quer passar para a sociedade, porque quem gasta R$ 2,5 milhões em uma semana de férias e pouco depois, no final de semana do carnaval, gasta mais quase R$ 2 milhões, não dá pra dizer que uma pessoa dessas tem hábitos simples. Em notícia-crime enviada ao Supremo Tribunal Federal, o senhor afirma que o presidente Jair Bolsonaro incitou animosidade entre Forças Armadas e governadores e prefeitos em declarações no dia 21 de março. Como segue essa investigação?O presidente Bolsonaro tem flertado de forma permanente com o fascismo e com o autoritarismo, por isso ele representa hoje, claramente, uma ameaça à democracia. No dia 21 de março, em mais um dos eventos antidemocráticos de que participou, eventos que defendiam a volta da ditadura, o fechamento de instituições que pertencem à organização democrática, ele fez essa declaração. Então, nós fizemos uma interpelação judicial junto ao Supremo, que mandou ouvi-lo e ele respondeu por meio da Advocacia Geral da União que não tinha nenhuma dubiedade no que ele falou. Diante disso, apresentamos uma notícia-crime junto ao Supremo e o ministro Marco Aurélio (Mello) encaminhou para a Procuradoria Geral da República. Nós esperamos que a PGR assuma seu papel constitucional e estabeleça um procedimento de investigação contra o presidente da República. O senhor também apresentou requerimento à Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara dos Deputados, aprovado por unanimidade, para que integrantes da cúpula da Defesa explicassem a compra de picanha e cerveja para as Forças Armadas. Representação protocolada por deputados do PSB junto à PGR apontava indícios de superfaturamento, com valores até 60% acima dos preços de produtos comprados. Nesse caso, o que foi apurado?Essa denúncia é grave do ponto de vista legal e moral. Moral porque é inadmissível em ano de pandemia, com tantas dificuldades que o povo brasileiro está passando, nós vermos parte do setor público, as Forças Armadas pertencem ao Estado brasileiro, gastar dinheiro com bebida alcoólica, com cerveja, uísque, com produtos caros, como picanha, filé mignon, salmão, lombo de bacalhau, isso é um verdadeiro tapa na cara do povo brasileiro. Mas do ponto de vista da ilegalidade, podemos constatar a questão do superfaturamento de produtos como, por exemplo, identificamos a compra de 12 mil quilos de picanha a R$ 84 o quilo, outro processo de compra de 60 mil quilos de alcatra a R$ 82 o quilo, e também compra de 70 mil quilos de músculo a R$ 43 o quilo. São evidências claras de superfaturamento. O ministro Walter Braga Netto (Defesa) esteve na comissão para prestar esclarecimentos e não conseguiu explicar. Ele só disse que determinou a suspensão da compra de bebida alcoólica, concordou que estava errado. Mas hoje isso está no Ministério Público Federal e como são vários processos licitatórios pelo país afora, o MPF resolveu pulverizar isso, foram abertos mais de 20 procedimentos investigativos em vários pontos do país, assim como o Tribunal de Contas da União, entendendo haver indícios de irregularidades, abriu procedimento também para investigar. Estamos aguardando os resultados para que efetivamente sejam responsabilizadas as pessoas que cometeram essas irregularidades e possam devolver dinheiro naquilo que for comprovado superfaturamento. Em maio, o senhor apresentou um Projeto de Decreto Legislativo (PDL) com o objetivo de derrubar portaria do Ministério da Economia que concede aumento extra teto ao presidente Bolsonaro, ao vice-presidente Hamilton Mourão e a ministros com patente. Estima-se que o reajuste, que será pago a partir de junho, chegue a 69% em alguns casos. Como está a tramitação desse PDL?O presidente assinou portaria que beneficiou pessoas com altos salários, no momento em que o governo é duro com os trabalhadores de uma forma geral e alimenta um processo de demonização dos servidores públicos, de que nós discordamos, foi assim na reforma da Previdência e está sendo assim na discussão da reforma administrativa. Estamos cobrando da mesa diretora, porque o presidente da Câmara, deputado Arthur Lira (PP-AL), colocou na gaveta, assim como fez com os impeachments que já deram entrada nessa Casa, demonstrando claramente a contrapartida que está dando por ter tido apoio do presidente Bolsonaro nessa política do toma lá, dá cá.