“O PSD não estará em posição de ser escolhido; nós vamos escolher”, diz o pré-candidato a senador por Goiás pelo partido, Henrique Meirelles, em meio às conversas com os grupos políticos da situação e da base governista para definição da chapa que o partido vai compor. Em meio a manifestações de insatisfação de aliados do governador Ronaldo Caiado (DEM), inclusive do senador Vanderlan Cardoso (PSD), Meirelles diz que tem foco na candidatura e não trabalha com hipóteses.O pré-candidato concedeu entrevista ao POPULAR neste domingo (31) no Castro´s Hotel, onde tem se hospedado nas visitas a Goiânia. Ele afirma que pretende voltar a morar em seu apartamento - no Setor Oeste, que está alugado - no início de 2022, quando também deverá deixar o cargo em São Paulo. Ele busca ainda local para instalar escritório político nas próximas semanas. Além de falar das articulações políticas, Meirelles defendeu a privatização da Saneago e comentou o teto de gastos prestes a ser furado pelo governo federal.O senador Vanderlan Cardoso tem manifestado insatisfação com a aliança do governador Ronaldo Caiado com o MDB e com a falta de diálogo na base. Disse ao Giro que vai rever o apoio à reeleição de Caiado e há até especulações de que ele pode ser candidato ao governo. Isso atrapalha a busca pela composição com o governo?Primeiro, o senador Vanderlan não é candidato a governador. Ele me disse isso claramente.Mas ele tem um histórico aí de mudanças de ideia.Tudo bem, mas para mim, hoje ele garante que não é candidato. A minha relação com o governador é uma relação de longo prazo. Somos amigos há muito tempo, inclusive de relações familiares, e estive lá, conversei com ele. Temos relação muito boa. Já comentei que o Ronaldo foi a primeira pessoa que me convidou para vir para Goiás e entrar na política, quando eu ainda era presidente mundial do Bank Boston. Temos então uma relação e um conhecimento mútuo que vão muito além de questões transitórias. Nós estamos numa fase de construir politicamente a candidatura e estamos indo muito bem. A partir daí, independentemente de qualquer coisa, nós não estaremos em posição de ser escolhido, nós vamos escolher. É diferente. Acredito que chegaremos mais à frente, no início do ano, com força suficiente para definir a melhor composição.O fato de o governador ter fechado aliança com o MDB, para o sr., é um problema?Não, para mim não é problema algum. O Daniel Vilela já esteve lá em casa, antes de fechar aliança, manifestou grande simpatia e apoio. Fomos parceiros em 2018. Tenho excelente relação com Daniel e acho que, do ponto de vista dele, foi um excelente movimento. Ele é jovem, se for eleito vice-governador vai assumir o governo em 2026 e é candidato à reeleição. Antes disso, eu não falei a ele porque não era o caso, mas pensei comigo: a composição com o governo é um movimento natural do Daniel. Evidente que desagradou muita gente, inclusive no próprio MDB, que acabou com a saída do Gustavo Mendanha. Mas tudo normal. É aquela expressão “estava nas cartas”. Eu não via um cenário em que Gustavo fosse candidato pelo MDB e Daniel o apoiasse. Estaria entregando o partido a ele. Eu não conhecia o Gustavo, ele esteve lá em casa duas vezes, e tive muito boa impressão dele. Teve votação relevante em Aparecida. Resumindo, nossa situação aqui me parece muito boa, muito confortável. No início do ano vamos definir qual é a melhor composição.O sr. não tem preferência?No momento, não. Eu tenho um princípio: sou uma pessoa com foco. Sempre trabalho com foco. Não fico pensando no que eu gostaria ou não gostaria. Eu não perco tempo com hipóteses. Eu trabalho em cima de fato concreto. Foi assim em 2002. Hoje minha ideia é fortalecer a candidatura politicamente. Depois disso, vamos pensar na composição.O sr. esteve no sábado com o presidente da Assembleia Legislativa, Lissauer Vieira, que deve se filiar ao PSD e também disse que não caminha com o MDB e criticou Daniel. Não é muita resistência ao MDB dentro do partido?Não discuti esse assunto com ele ontem (sábado). Estive na casa dele e o que conversamos foi o apoio dele a minha candidatura. Ele me disse que está fechado, que vai me apoiar. Não falei sobre a relação dele com Daniel.Alexandre Baldy, presidente do PP, é pré-candidato ao Senado, já saiu de São Paulo (Secretaria Estadual de Transportes Metropolitanos), e decidiu voltar a compor oficialmente a base do governo, com indicação da Secretaria de Indústria e Comércio. Este movimento todo não coloca o PP à frente do PSD na relação com o governo?Não é a minha avaliação. O acordo do governador com o Baldy não passou pelo Senado. Foi um movimento dele de compor a administração, colocar lá o irmão, em um trabalho de fortalecimento a longo prazo do PP. Acho que o movimento do Baldy é um movimento de prazo mais longo. Ele é pré-candidato a senador, mas não está bem nas pesquisas, por razões conhecidas, alguns problemas que enfrentou. Ele tem claramente um projeto de longo prazo de fortalecer o partido e se tornar, num espaço de vários anos, um líder político consolidado e forte em Goiás, liderando um partido forte. Vi inclusive num jornal, e não sei se é verdade, que ele disse que vai trabalhar prioritariamente na viabilização da candidatura do Jair Bolsonaro. Bom, a relação, me parece, entre Ronaldo Caiado e o Bolsonaro não é hoje de aliança. E eu tenho conversado com Baldy, tenho boa relação com ele. Eu acho que ele tem um projeto de longo prazo.E o sr. acha que por parte do governo não havia expectativa de já contar com o PSD na base, assim como o PP?Acho que não é o caso porque não é o pleito do PSD. Aí que está a diferença. O pleito do Baldy era participar do governo. Esse era o objetivo, colocar o irmão dele lá e construir um projeto de partido de longo prazo, não necessariamente para esta eleição. O PSD não tem interesse em participar da administração, de ter secretarias. O PSD tem um projeto: eleger o senador, e as bancadas federal e estadual, evidentemente. São projetos diferentes.O sr. já começou a discutir quem será seu suplente?Não. Tem algumas especulações, mas eu não fiz essa conversa direta ainda. Eu não estou preocupado com isso no momento. Tudo vem no devido tempo. Agora é o fortalecimento político da minha candidatura.Mas como deve ser essa escolha? Será uma indicação política ou haverá outros critérios?Precisa ser alguém qualificado politicamente e administrativamente. Eu não pretendo deixar o mandato. Acho que é o momento do Legislativo. Como não estou pensando em sair, não preciso ficar pensando em escolher um suplente para assumir. Por isso não estou preocupado com suplente.Mas oito anos é um longo tempo de mandato e existe uma desconfiança grande de que o sr. poderia não cumprir todo o mandato, caso seja eleito. Como o sr. está sempre cotado para Ministério da Fazenda ou Banco Central, há essa dúvida e a preocupação com o suplente. Esses aí são cargos que já exerci, já dei minha contribuição. Não me atrai a possibilidade de ser de novo ministro da Fazenda, menos ainda outro ministério. Presidir o Banco Central não faz sentido a essa altura. Eu acho que temos agora momento de grande protagonismo do Senado. Para o Brasil crescer, precisa ter aprovação de reformas relevantes, por exemplo, a tributária e a administrativa. Se eu estivesse agora no Senado já estaria trabalhando intensamente pela reforma tributária porque ela é fundamental para o País. Conheço profundamente este assunto. Assim como a administrativa, porque tem toda essa discussão de furar teto, de precatórios. Tudo isso porque precisa fazer gasto social. Perfeitamente. Qual é a solução? Abrir espaço dentro do teto, não estourar o teto.Como isso é possível?O Brasil precisa de uma reforma administrativa como fizemos em São Paulo. Lá fechamos estatais, cortamos privilégios, cortamos incentivos que não faziam mais sentido, benefícios, e temos hoje R$ 50 bilhões que estão ou vão entrar em caixa, disponíveis para gastar em investimentos até o fim de 2022. Isso significa obras para saúde, educação, segurança, mas também para projetos sociais.Mas só a reforma administrativa no governo federal é suficiente para bancar o custo do Auxílio Brasil?Sim, é mais que suficiente. Tem muito espaço. Se São Paulo conseguiu R$ 50 bilhões... Evidente que foi a reforma e o crescimento econômico do Estado, mas é possível. É uma verdade, mas digo em tom de brincadeira para não ficar desagradável: quando eu era ministro da Fazenda, o Brasil crescia mais que São Paulo, a média brasileira; depois eu assumi a Secretaria da Economia de São Paulo e São Paulo está crescendo mais que o Brasil. Isso nos últimos três anos. Mas a reforma administrativa foi fundamental. E tem espaço para fazer isso no governo federal.O sr. comentou o distancimento do governador Caiado com o presidente Bolsonaro. Essa questão de apoio para presidente da República vai fazer diferença na decisão da escolha de sua chapa?Não.Se de repente Caiado resolve apoiar Bolsonaro, o sr. pode estar na chapa assim mesmo?Ou quem o Gustavo Mendanha apoiar, também não. Só que eu acho que essa composição federal vai ser menos importante do que parece. Pelas características dessa eleição. A começar, está muito polarizada. E não está passando por composição política. Há os eleitores do Bolsonaro, ele tem uma base aguerrida e ele vai procurar expandir com o Auxílio Brasil. Tem a base do Lula, e ele continua liderando as pesquisas. E tem uma possibilidade de terceira via, vai depender muito do resultado da prévia do PSDB. Acho que isso não passa tanto pelas alianças regionais. O Caiado e o Gustavo Mendanha vão tomar as decisões deles. Mas a minha preocupação no momento é com o fortalecimento da candidatura. Depois disso vou ver a aliança estadual. Essa sim, acho relevante.O sr. tem tido conversas com representantes do segmento evangélico nessas vindas a Goiás. Há uma pauta de interesse grande dos evangélicos no Congresso e eles são muito focados nas eleições para deputado e senador. Como é sua relação com os evangélicos e com essas pautas que eles defendem? Aliás seu suplente pode ser evangélico?Estamos conversando. A conversa ontem (sábado) com o apóstolo (Sinomar Silveira, da Igreja Luz Para os Povos) foi excelente e foi nessa linha, independente de quem ele vai apoiar para governador. No caso dele, pareceu que a tendência maior é de apoio ao Gustavo Mendanha. Mas a conversa é de apoio do segmento dele e dos pastores que estão com ele à minha candidatura. Isso está bem encaminhado. Eu acho que o segmento evangélico é forte politicamente, é um dos poucos segmentos da sociedade que se reúne toda semana, tem uma militância religiosa muito forte, e portanto mantemos uma conversa muito boa.Mas vai fazer compromissos com essa pauta deles no Congresso?Não conversamos sobre isso. Conversamos da manifestação de intenção de me apoiar, de fechar o compromisso de apoio. Agora, eu acho que eles têm toda essa estrutura de militância para eleger a base de parlamentares deles. Isso não me parece a grande preocupação deles. A preocupação, sim, é em ter um senador que eles acham que represente bem o Estado.Quando pretende sair da secretaria de São Paulo e ficar mais em Goiás?A princípio minha ideia é na virada do ano, quando estarei em período integral aqui em Goiânia. Eu tenho um apartamento aqui desde 2001 e pretendo voltar para lá. Isso já está conversado com o governador João Doria.O sr. comentou que tem ouvido do setor produtivo queixas de dois grandes gargalos em Goiás: a Enel e a Saneago. O que é possível fazer?A Saneago, eu acho que uma privatização bem feita. Sou favorável. Trabalhei no projeto da Sabesp e conheço bem este assunto, e é o mesmo caso da Saneago. Inclusive a nova lei do saneamento eu trabalhei diretamente no relatório. Mas tem de ser uma privatização bem feita para que não se repitam os problemas da Enel. A licitação tem de ser decidida não pela outorga, mas pelo valor comprometido de investimentos. Primeira coisa é ter compromisso contratual do volume de investimentos. Segundo: penalidades, inclusive de perda da concessão se não cumprir. Porque é esse o problema. A Enel ganhou e não está investindo.O plano atual do governo é vender apenas 49% das ações da Saneago e não privatizar. O sr. acha que não resolve?Teria de privatizar. Acho que o melhor caminho é a privatização. Note bem, com o compromisso de investimentos e com penalidades se não cumprir. Porque senão você cai num buraco igual. Hoje nos casos da Saneago e da Enel, ou você tem um monopólio estatal ou você tem um monopólio privado. Monopólio não funciona. É aquela questão da Petrobras, que agora voltam a falar da possibilidade. Se privatizar monopólio vai dar problema. Teria de fazer o que foi feito, por exemplo, nos EUA e no Brasil, quando privatizaram as telefônicas, com quebra de monopólio.E no caso da Enel, o que acha que pode ser feito agora?Agora, tem de entrar em processo de renegociação, de cobranças. E passa a ser relevante o papel da agência reguladora.Como avalia as conversas que tem tido em Goiânia?Extremamente positivas. Tenho tido receptividade grande. As pessoas muitas vezes inclusive até me agradecem pelo fato de eu estar disposto a me candidatar por Goiás, a colocar toda minha experiência, conhecimento, contatos nacionais e internacionais, para ajudar o Estado. Temos tido discussões específicas com o meio empresarial, discutindo o que pode ser feito para colaborar, buscar investimentos. Eu frequentei muito o Senado, como presidente do BC e como ministro, e tenho boa experiência de direcionar recursos federais para Goiás. Tudo com uma base de credibilidade, conhecimento, experiência. Foi isso que me convenceu a me candidatar a senador por Goiás. Fui convidado por outros Estados, em anos anteriores e agora, e não aceitei. E tenho tido receptividade enorme, independentemente do lado das pessoas na disputa para governador.