Enquanto o PSD nacional avança nas articulações para participar do governo do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o senador goiano Vanderlan Cardoso (PSD), forte apoiador do presidente Jair Bolsonaro (PL), afirma que aguardará as primeiras ações da gestão petista para definir uma posição no Senado, mas diz ter gratidão ao petista pela época em que foi prefeito de Senador Canedo (2005-2010) e que não é contra seu partido ter ministérios.Ex-apoiador da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), Vanderlan destaca que não fez críticas nem xingou Lula durante a campanha e que “não faz oposição por fazer oposição”. O senador também se posicionou contrário ao bloqueio de estradas em manifestações golpistas em todo o País e contou ter sido prejudicado com caminhões de sua empresa barrados em pontos das rodovias.Mais tarde, em entrevista à CBN Goiânia, ele afirmou ser a favor das manifestações, em praças, quartéis e espaços públicos, mas que é contra o fechamento de estradas.O presidente do PSD, Gilberto Kassab, vem articulando a ida do partido para a base de apoio do presidente eleito Lula e o senador Otto Alencar (PSD-BA) diz ver tendência de que isso ocorra, comentando que essa conclusão é com base nas conversas que já fez com os colegas, incluindo o senhor. Há essa tendência?Não tratei de apoio a presidente ainda. Falei com Otto de interesses específicos dele. O PSD está rachado e o presidente nos deixou muito livres na atuação da bancada e na campanha. Mas eu não sou contrário que o partido tenha nomes compondo o ministério.Mas acredita que o PSD ficará na base ou não?Acredito que o Kassab vai fazer como fez com o governo Bolsonaro. Deixar a bancada livre. Eu não falei com ele após a eleição. Na próxima semana é que essa discussão vai esquentar. Não há nada decidido ainda.Ao conversar com os colegas, nota alguma tendência majoritária da bancada?Não. Foi muito forte para o partido estar dentro de um governo com tudo que aconteceu. Ficou muito ruim a história do petrolão e tudo mais, foi muito escandaloso.A sua posição é de não ser da base de apoio?A minha posição, e vou ver isso dentro do partido, é de apoiar as matérias realmente de interesse do País. Agora tudo que for contra o que defendo, de drogas, de aborto, legalização de jogos, de uma série de coisas que não defendo, eu não voto. Dentro do governo Bolsonaro, eu também tenho minhas divergências. Por exemplo, eu sou contra armas. Não sou contra quem quer ter, mas eu já tive problema na infância, familiar (prefere não detalhar), e sou contra. Sou contra uma série de coisas que no governo do PT são muito liberais, muito livres.Mas não há qualquer perspectiva de projeto do governo em favor de aborto ou drogas.Tem alguns lá que defendem. Tem projetos favoráveis do pessoal do PT.Mas o governo não indica que pretende bancar nem se envolver com isso.Eu acredito que não. Já vi muitos acenos de que o próprio presidente (Lula) vai corrigir algumas falas. Vai querer reconquistar a população, porque houve muita divisão. Então vamos esperar para ver.Mas quando discutir com o partido, vai defender independência?Eu quero continuar sendo o que fui no governo Bolsonaro. Paguei um preço lá dentro, fui muito criticado por eles inclusive, por algumas pautas que eram do governo, mas que eu não defendia e votei contra.O sr. também elogiava o governo de Dilma Rousseff e mudou de posição.Eu fui candidato em 2010 (a governador de Goiás) na base do governo Lula. Havia um acordo do Lula e da Dilma conosco em Goiás que eles não viriam aqui fazer campanha para ninguém. Porque éramos eu e Iris Rezende na base. E faltando uns 30 dias, quando eu encostei no Iris, aí eles cederam à pressão do MDB e vieram fazer campanha pro Iris.Mas depois o sr. seguiu elogiando a gestão petista.Sim. No segundo turno, eu apoiei Dilma, a pedido do próprio presidente (Lula). Você nunca viu fala minha criticando o governo Lula. Porque eu fui prefeito durante o governo Lula. Por isso nunca entrei num bolsonarismo extremo. Eu fui prefeito e não tenho o que reclamar, pelo contrário. Recebi muita ajuda do governo federal e do governo do estado. Não vou entrar nessa de campanha radical, raivosa. Até porque não é meu perfil. Eu nunca entrei em polêmicas - a não ser como foi na campanha de 2020, quando editaram fala minha na rádio - ou em campanhas raivosas, de chamar fulano de ladrão ou qualquer coisa assim. De forma alguma. E também não é meu perfil ser oposição por ser oposição. Quero ter minha tranquilidade em votações como tive até hoje. Quando eu não concordava com o governo, eu explicava ao líder do Governo os meus motivos e pedia ao partido para liberar a bancada. Como foi a questão das armas na CCJ. Meu posicionamento foi respeitado.Mas o sr. é da base de apoio do presidente. Agora o sr. pode ser da base de apoio de Lula se continuar tendo essa liberdade?Ainda não foi conversado. Isso depende de uma série de fatores, da montagem da equipe de governo, como serão as ações, quais serão as medidas para a economia, o que vai continuar daquilo que está dando certo. É muito cedo ainda definir isso sem que seja apontado um rumo. O que o governo vai fazer? Como ficará a indústria? Para mim, um ponto que ele pode acertar é a recriação do Ministério da Indústria e Comércio. Como será a injeção de recursos na economia? Um dos pontos positivos do presidente Bolsonaro foi a injeção de recursos na pandemia, para salvar empregos, empresas. Teremos muitos problemas ainda na economia, combustível, ICMS. É muito cedo e prematuro dizer ‘eu vou ser oposição’. Oposição ao quê, se ainda não foi anunciado nada? Se for positivo para o País, vai ser oposição? Então ainda haverá muita conversa. Mal passou a eleição e teve essa questão de fechamento de rodovias. Isso está prejudicando o País.O sr. é contra?Minha empresa já tem caminhão parado em barreiras e tem matéria-prima que não chega. Isso é ruim para o País. Quantas eleições eu já perdi? Em nenhuma delas eu fiquei lá incentivando protestos. Para com isso. É ruim. Mas, voltando ao governo, eu quero primeiro observar quais serão as primeiras ações. Não vou sair falando que vou aderir. Aderir ao quê? Ninguém (na campanha dos dois candidatos) apresentou projetos. Falavam do que dava voto, mas qual é o projeto macro para o País? Eu estou apreensivo, como a maioria dos brasileiros, porque tenho mais de 2 mil funcionários e temos empresas espalhadas nas regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste. Estou apreensivo. Agora, não é a mesma apreensão de 2002, quando a maioria dos empresários e eu mesmo, achávamos que o mundo ia acabar com a eleição do Lula. E o fato de eu ter apoiado a Dilma em 2010 foi porque neste período houve bons projetos do governo Lula. Eu falei em todas as reuniões este ano: Eu vou falar da pauta positiva do meu candidato. O meu candidato é o presidente Bolsonaro. Agora, todos os governos deixaram suas contribuições. Fernando Henrique Cardoso deixou sua contribuição, na abertura de concessão das teles. Cada um deixa algo positivo. Depois o povo entendeu que ele merecia reeleição. O Lula foi do mesmo jeito. Agora, no meu ponto de vista, Bolsonaro merecia, sim, a reeleição. Foi o que defendi, mas sem xingar ninguém, nem chamar disso ou daquilo. Até porque eu poderia ser tachado de ingrato porque eu fui prefeito na época do presidente Lula. Construí casas e tive muito apoio na saúde do governo federal. Não participei do governo Dilma porque não era mais prefeito.Sobre a proposta de contribuição do agro que o governador Ronaldo Caiado quer criar, o que acha?Isso já era um pedido antigo da Federação das Indústrias. Quando ele aumentou o Protege em 200%, houve muita reclamação: por que não pegar essa contribuição do agro, que tem tantos benefícios? Essa contribuição foi o que salvou o Mato Grosso do Sul para equilibrar as contas. O que me parece é que agora Goiás não está precisando de caixa. Criar imposto agora, mesmo que esse setor não tenha contribuído com nada ainda - diferentemente do meu e de vários outros -, pode ser inoportuno porque o caixa do governo está abarrotado. Precisaria lá no início do governo. Agora eu não vejo essa necessidade. O último gargalo que tinha era aquele empréstimo com condições ruins, de quase R$ 3 bilhões, e nós tratamos dele. Eu pilotei aquilo agora no Senado. Mérito do governo, da Cristiane Schmidt, que trabalhou muito em cima daquilo. O governo já trocou dois financiamentos ruins e já está no Regime de Recuperação Fiscal (RRF).Leia também:- Bolsonaro pede desobstrução de rodovias, mas diz que outras manifestações 'são do jogo democrático'- Vanderlan Cardoso tem caminhões barrados em bloqueio de estradas e critica manifestações- União Brasil suspende filiação de Naçoitan Leite após declaração sobre “eliminar” Lula