Levou meio século para que, em 2006, fosse publicado “Ennui”, poema escrito por Sylvia Plath aos 23 anos, quando fazia faculdade. Oito anos depois, ela pôs a cabeça no forno do fogão, ligou o gás, se matou e foi entronizada no panteão da poesia feminina. O soneto “Ennui” (tédio) é uma crítica mordaz a quem -seja qual for seu gênero- se crê predestinado a peripécias. “A fera na selva jamesiana não saltará nunca”, diz o poema cujo título remete ao spleen de Baudelaire. É o tédio que rói o coração, explicita Plath, e não a ânsia de trombar com dragões, ogros ou os anjos do Apocalipse. Esses entes são ilusões de “cavaleiros naif”, diz, e hoje até “princesas blasé” sabem que não passam de figuras ridículas. Em “A Fera na Selva”, o ingênuo Henry James leva a sério a expectativa de glória de John Marcher. E em “Ennui”, a espoleta Sylvia Plath zomba do criador e da criatura que cortejam futuros fantasiosos.