Os intelectuais têm peso na França. Afinal, foi lá que surgiram. Em 1898, dois dias depois de Émile Zola publicar “Eu Acuso”, saiu o “Manifesto dos Intelectuais”, libelo de escritores, cientistas e filósofos em defesa do capitão Alfred Dreyfus, preso e desterrado para a Ilha do Diabo por traição —quando, na verdade, era vítima do antissemitismo do oficialato.O intelectual francês é tido desde então como um pensador que intervém na cena nacional, tendo como balizas a apologia do racionalismo, da justiça e da liberdade. É o intelectual público (Camus), engajado (Sartre) ou mesmo crítico dos intelectuais tradicionais (Foucault).O mundo mudou e com ele os intelectuais. Nos últimos tempos, o que lá eles chamam de esfera midiática está cada vez mais atulhada de intelectuais, ou de candidatos a. Mas minguou o sentido coletivo, o propósito comum, as causas que galvanizavam a intelectualidade como um todo.Foi assim até a semana passada, quando houve uma virada e os intelectuais saíram massivamente a campo. Como outrora, pleiteiam liberdade. E a novidade é o choque direto e aberto com a extrema direita, representada pelo empresário Vincent Bolloré, dono de uma fortuna estimada em R$ 52 bilhões, a décima da França.Na epiderme, Bolloré fez algo irrisório. Demitiu o diretor da menor das centenas de empresas que possui —que atuam em 130 países e empregam 80 mil pessoas: uma editora com 38 funcionários em Saint-Germain-des-Prés, a dois passos do Café de Flore.Ocorre que a editora é a Grasset. Fundada em 1907, ela tem 6.500 títulos no catálogo e publica 160 livros ao ano, escritos pela fina flor da intelectualidade francesa. E o editor despedido, Olivier Nora, é filho de Simon, resistente de primeira hora, e sobrinho de Pierre, historiador da terceira geração da Escola dos Annales.A reação foi imediata e formidável. Em três dias, mais de 220 autores saíram da Grasset em solidariedade a Nora, editor de talento mítico e adorado por todos os que com ele trabalharam. Na imprensa e na web, foram dezenas os artigos vergastando Bolloré. Virginie Despentes, autora de “Vernon Subutex” e “Querido Babaca”, chamou-o de predador.Despentes tem motivos para dizer isso. Ele é herdeiro de uma família abastada desde antes da Revolução. Embora sua cornucópia tenha origem na fabricação de papel na Bretanha e especulações financeiras em Paris, o grosso da bufunfa veio da África. Construiu ali um império neocolonial com portos, terminais de containers, ferrovias e plantações de tabaco.A partir do início do século, passou a vender as possessões africanas e a investir em entretenimento e meios de comunicação. Comprou joias do audiovisual (Canal +), rádios (Europe 1), órgãos de imprensa (Paris Match, Journal du Dimanche), editoras (Laffont, Plon). Pôs todas as empresas sob as asas grupo Vivendi, de 36 mil funcionários, que adquiriu em 2014. Católico tradicionalista, conservador nos costumes, neoliberal na economia e reacionário na política, Bolloré impôs seu credo à sua imprensa. Ou seja, obrando e andando para firulas republicanas. No Journal de Dimanche, nomeou como diretor um quadro da extrema direita, deflagrando a segunda maior greve de jornalistas na França: 40 dias.A demissão de Nora foi aparentemente fútil. No final de 2025, foi solto da prisão em Argel o escritor Boualem Sansal, crítico do governo e do islamismo. Estabelecido na França, trocou sua editora, a Gallimard, pela Grasset de Bolloré, com quem passou a se identificar.Sansal queria publicar de imediato o relato de sua prisão. Nora achou melhor lançar o livro depois da vaga de lançamentos em setembro –a “rentrée littéraire”. Bolloré mandou Nora publicá-lo prontamente. O editor não aceitou a intromissão e foi mandado para a rua.A resposta de Bolloré à crise deixou claro que, com a demissão, quer abrir uma nova fase no mundo editorial. Ele disse que quem manda numa editora é o dono. A saída de centenas de escritores da Grasset, disse, foi provocada por “uma pequena casta que se acredita acima de tudo” e tem uma enorme capacidade de fazer barulho na mídia, “assustando muitos”.Os escritores, e não só os saídos da Grasset, contra-atacaram com um manifesto. Eles reivindicam a criação nas editoras da cláusula de consciência. Com ela, não seriam obrigados a aceitar uma mudança da linha editorial. Ao contrário, manteriam o direito pelos seus livros e seriam indenizados. “Não somos propriedade de um acionista”, escreveram.