Um dos maiores desafios no julgamento dos crimes praticados no contexto de violência doméstica e familiar contra a mulher surge quando a vítima, após relatar as agressões, modifica sua versão em audiência, minimiza os acontecimentos ou passa a negar a violência anteriormente narrada. Essa mudança pode parecer uma contradição capaz de comprometer a acusação. No entanto, a violência doméstica e familiar possui uma dinâmica própria, enraizada em construções culturais, afetivas e relacionais. Por isso, o julgamento com perspectiva de gênero se mostra essencial para compreender comportamentos que, quando analisados de forma isolada, podem parecer contraditórios, mas que, inseridos no ciclo da violência, revelam uma realidade muito mais complexa. Mulheres em relações violentas podem permanecer vinculadas ao autor da violência por razões afetivas, econômicas, familiares e sociais. Medo, dependência, esperança de mudança, preocupação com os filhos, vergonha, sentimento de culpa e receio das consequências da responsabilização criminal podem coexistir.