Mais de dois milênios após sua realização, A Odisseia, de Homero, permanece a oferecer acendimentos para inquietações intensamente atuais. Muito além de epopeia sobre excursões marítimas, monstros e divindades, o poema pode ser entendido como narrativa da vida psíquica: a extensa travessia de um sujeito que precisa lidar com seus próprios conflitos para, finalmente, chegar a si próprio. Sob visada psicanalítica, Ulisses não passa apenas pelo Mediterrâneo. Ele atravessa os panoramas do desejo, da consternação, da perda e do encanto. Cada ilha concebe um estado psíquico; cada empecilho, uma possibilidade de feitio da personalidade. Os ciclopes podem figurar a força bruta do narcisismo inábil em distinguir e assimilar a alteridade. As sereias representam o enlevo face às promessas de satisfação total, trata-se de seres (ou circunstâncias) que asseguram reconhecimento integral e deleite sem limites, mas conduzem ao desmoronamento do sujeito. Circe e Calipso ofertam a comodidade da permanência, a sedução de “parar” o tempo e abdicar da tarefa, sempre árdua, de continuar existindo.