A banalização de “À Procura do Tempo Perdido” é uma praga. O romance de Proust é longo e árduo —e os banais acertam ao dizer que tempo é dinheiro e que de dura chega a vida. Dá trabalho desenrolar suas frases enroscadas. Escoltar duquesas meses a fio requer curiosidade malsã. A escrita crítica atropela o pocotó da literatura pangaré. Não se trata só de forma: no peito do romance desencantado bate um coração de pedra. Afora o amor neurótico do Narrador pela mãe, tudo o mais é negativo. A paixão não leva à felicidade a dois, e sim à angústia a um. A amizade é tola quimera. Não amamos mais ninguém quando amamos. A mercantilização de tudo e todos, todavia, fez com que a melancolia do romance desse lugar a livros ligeirinhos sobre roupas e viagens de seu autor. Que ele virasse o escritor francês mais traduzido, o tema do maior número de teses universitárias da Europa. O Proust prêt-à-porter diz algo sobre a sociedade de consumo hoje, mas nada fala do seu vazio.