Já se passaram mais de três anos desde que a inteligência artificial generativa tomou o mundo de assalto. Hoje, com ferramentas batendo a marca de centenas de milhões de usuários regulares, o debate deixou de ser puramente sobre a capacidade tecnológica para se concentrar nas armadilhas do comportamento humano. O artigo “How People Are Really Using AI in 2026”, publicado pela Harvard Business Review, traz um diagnóstico alarmante: estamos entregando voluntariamente nossa agência cognitiva e emocional para as máquinas. O dado mais perturbador do estudo, que analisou mais de 12.600 casos reais de uso, é a adoção em massa do que os autores chamam de “thinkslop” — o pensamento desleixado provocado pelo uso excessivo da ferramenta. Em pelo menos um quarto dos principais usos analisados, as pessoas estão pedindo à IA para fazer o trabalho duro de pensar. Seja para tomar decisões, organizar a vida ou gerar ideias, estamos terceirizando nossos cérebros. A escrita, por exemplo, não é apenas a transcrição de uma ideia; redigir e editar é o próprio processo de pensar. Ao delegarmos isso à IA logo no início de um projeto, perdemos a nossa intencionalidade. Pior ainda, a inteligência artificial é otimizada para nos agradar, muitas vezes elogiando ideias medíocres, o que cria uma falsa sensação de rigor intelectual que nos torna complacentes e intelectualmente preguiçosos.