“Estamos avançando”, diz Hamm a Clov em “Fim de Partida”, de Samuel Beckett, em cartaz em São Paulo, com Marco Nanini. Avançar como, se, cego e paralítico, Hamm não sai da cadeira de rodas, e seu empregado Clov, por mais que o odeie, não consegue livrar-se dele? Se avançar não dá, retrocedamos. Em 2024, Roberto Schwarz publicou na New Left Review o ensaio “Adorno/Beckett”. É a transcrição de uma palestra que deu, em 2006, sobre o crítico alemão e o dramaturgo irlandês centrada, justamente, na peça “Fim de Partida”. Ela se passa num cômodo claustrofóbico da qual ninguém sai porque algo inominável extinguiu tudo, restando apenas o horizonte cinzento. Além do senhor e do servo, há no palco o pai e a mãe de Hamm. Disjecta membra, detritos esparsos da derradeira destruição, vivem em latas de lixo.