O filósofo William James, pioneiro da psicologia nos Estados Unidos, disse que, se numa noite escura projetarmos a luz de uma pequena lanterna no rio Mississippi, a superfície iluminada estará para a massa total das águas como a nossa consciência para a massa de nossa vida inconsciente. Antonio Candido repetiu a frase e, com um ponto de exclamação que não era do seu feitio, desabafou: “Que coisa difícil!”. Não falava de psicologia, mas dos romances brasileiros que, suando sangue, lia para escrever sua coluna semanal no Diário de S.Paulo. Entre os lançamentos, os romances apenas passáveis eram gotículas de um caudaloso Mississippi. Naquele dia, ele comentou livros de três estreantes. O primeiro, disse, além de “pretensioso” e “pedante”, era uma “marcha de cartola e jaquetão”. O segundo mesclava “ingenuidade científica, ironia fácil e pseudocomplexidade”. No último, “o espírito é reduzido à piada, o vigor à brutalidade, a finura à falta de escrúpulos”.