Friedrich List, economista alemão do século 19, notou algo incômodo: a Inglaterra pregava livre-comércio ao mundo depois de ter subido ao topo industrial protegendo suas indústrias nascentes com tarifas, monopólios e pirataria tecnológica. Quase dois séculos depois, o economista sul-coreano Ha-Joon Chang retomou a metáfora em “Chutando a Escada”: todo país hoje desenvolvido, Inglaterra, Alemanha, Estados Unidos, subiu por política industrial ativa, subsídio estatal, protecionismo seletivo, e só depois de chegar ao topo passou a exigir dos emergentes livre-comércio, austeridade fiscal e Estado mínimo como receita universal, chutando a escada que os próprios usaram para que ninguém mais suba pelo mesmo caminho. Os planos de governo lançados por Lula e Flávio Bolsonaro, líderes nas pesquisas das eleições para presidente 2026, funcionam como um teste em tempo real dessa tese, e leem-se melhor com essa lente do que com o rótulo esquerda-direita.