O agronegócio brasileiro vive um paradoxo que já não pode mais ser tratado como exceção conjuntural. De um lado, o país caminha para colher mais de 350 milhões de toneladas de grãos e sustenta o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) do setor. De outro, cresce o número de produtores endividados, pressionados por custos, clima e um modelo de produção cada vez mais arriscado. Os dados recentes de recuperações judiciais no campo são um sinal claro de que algo não fecha nessa conta. Produzir mais deixou de ser sinônimo de lucrar mais. Ao contrário: em muitos casos, significa apenas correr mais rápido para não ficar para trás. Ou, em uma imagem cada vez mais comum, para adiar um colapso financeiro que já se desenha no horizonte. A queda nos preços das commodities, como a soja, escancara essa distorção. Em poucos anos, a rentabilidade despencou, enquanto os custos seguiram na direção oposta. Fertilizantes, defensivos, diesel e crédito caro comprimem as margens e reduzem a capacidade de planejamento. O produtor perde previsibilidade e passa a operar em um ambiente de permanente incerteza.