Os economistas que escrevem para a grande mídia nacional, quase todos neoliberais, que defendem a financeirização da economia e são poucos partidários da democracia e da justiça social, criticam veementemente, a Constituição de 1988, citando-a como responsável pelo constante desequilíbrio fiscal da economia brasileira. Colocam na conta deste desequilíbrio o aumento dos gastos públicos para defender os excluídos, os necessitados, ou seja, para defender a maioria do povo brasileiro. Esse argumento, repetido à exaustão nos espaços privilegiados da imprensa, ignora uma evidência histórica fundamental: o Brasil como sociedade transformou-se após a Constituição de forma nunca vista em sua história. E os números estão aí para provar. Lendo O País Dividido, de Jairo Nicolau, professor e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV-CPDOC), constata-se com precisão empírica essas mudanças. Nicolau analisa duas décadas de eleições presidenciais, de 2002 a 2022, e suas conclusões são reveladoras: o Brasil que elegeu Lula pela primeira vez não é o mesmo que o reelegeu vinte anos depois. Naquele país, o eleitorado era majoritariamente jovem e de baixa escolaridade. Hoje, é mais velho, mais feminino, mais escolarizado.