Imagine chegar a um restaurante e descobrir que o cardápio só existe por meio de um QR Code. Ou precisar acessar sua aposentadoria e perceber que o procedimento depende de reconhecimento facial, senha, aplicativo e validação digital. Tente marcar uma consulta, resolver uma pendência bancária ou falar com um atendente humano. Para milhões de idosos brasileiros, situações como essas não são pequenos incômodos do cotidiano. São barreiras reais ao exercício da cidadania. A sociedade comemora os avanços tecnológicos, e com razão. A tecnologia simplifica processos, reduz distâncias e amplia possibilidades. O problema surge quando a inovação passa a substituir completamente as alternativas acessíveis para parte da população. Nesse momento, o que deveria incluir passa a excluir. O filósofo francês Pierre Lévy alertou que toda nova tecnologia cria seus excluídos. A frase parece especialmente atual quando observamos a realidade das pessoas idosas. Segundo pesquisa divulgada pela Agência Brasil, a exclusão digital afeta 20,5 milhões de brasileiros, o equivalente a 10,9% da população com 10 anos ou mais. Entre os idosos, o principal motivo para não utilizar a internet é a falta de familiaridade com as tecnologias, apontada por 66,1% dos entrevistados.