O recém-lançado “Impasse” é o livro mais sombrio de André Singer. Cientista político e ex-secretário de imprensa no primeiro mandato do PT no Planalto, ele elaborou o conceito de lulismo —o reformismo fraco, com distribuição de renda sem conflitos e manutenção da ordem social que produz a desigualdade. O impasse a que o livro se refere vem da dificuldade de o presidente acomodar os interesses díspares da frente que o elegeu. Numa ponta está o empresariado. Ele não quer apenas o fim das aposentadorias reguladas pelo salário mínimo. Almeja, como defendeu Armínio Fraga, congelar o mínimo por nada menos que seis anos. A elite cosmopolita amaria capar as verbas obrigatórias da saúde e da educação. O que ela chama de “controle fiscal”, Singer traduz como “abolir as grandes despesas públicas de interesse popular”. O corolário desse programa seria a privatização ampla, geral e irrestrita, se possível, de nacos da Petrobras, das universidades públicas e, valha-me Malafaia, do SUS.