A elevação do endividamento das famílias costuma ser associada, de forma quase automática, ao nível da taxa de juros. A relação existe: juros mais elevados encarecem o crédito e ampliam o custo do serviço da dívida, especialmente nas modalidades de maior custo, como o crédito rotativo do cartão. Entretanto, atribuir à política monetária a explicação central para o atual nível é insuficiente. A própria evidência histórica sugere cautela. Em 2015 a taxa Selic era de 14,25% e o porcentual de famílias endividadas situava-se próximo de 61,10%. Hoje o endividamento é de 80,40% com uma Selic de 14%. Portanto, a diferença não pode ser explicada exclusivamente pela taxa de juros. O que ocorreu nesse intervalo foi uma transformação significativa na estrutura do consumo e do sistema financeiro. A pandemia acelerou a digitalização das empresas e modificou os canais de comercialização. O comércio eletrônico, que já apresentava trajetória de expansão, ganhou escala e novos consumidores. As vendas no digital em 2019, antes da pandemia, somaram R$ 61,9 bilhões no ano. Em 2025, segundo a ABComm/Abiacom foram R$ 235 bilhões.