Há 80 anos houve uma ruptura, a entrada da humanidade numa era que abalou a própria noção de tempo histórico. Em 6 de agosto de 1945, a bomba atômica americana que estourou em Hiroshima matou 140 mil pessoas. Três dias depois, outro petardo dizimou 74 mil em Nagasaki. Na primeira de suas “Teses para a Era Atômica”, o filósofo Günther Anders enuncia o conteúdo desse novo período: “A época na qual nós podemos, a todo momento, transformar qualquer lugar —não, nossa Terra como um todo — em uma Hiroshima”. E Anders conclui: “Não importa quanto tempo, não importa se vai durar para sempre, esta época é a última. Pois sua diferença específica é: a possibilidade de nossa autoextinção não pode terminar nunca —somente pelo próprio Fim”. Adeus à “paz perpétua” de Immanuel Kant e do Iluminismo. O gênio saiu da garrafa e é impossível tampá-lo nela de novo. Se antes eram só os Estados Unidos, hoje são nove países com armas nucleares. O progresso da ciência e da técnica incrementou o perigo atômico. Nos séculos anteriores a agosto de 1945, a questão filosófica era “como viveremos?”; agora é “como conviver com a autoaniquilação à espreita?”.