“O Grande Arco de Paris” é uma tripla surpresa. Um, seu título não se refere ao Arco do Triunfo cansado de guerra. Dois, trata de arquitetura, o que é raríssimo no cinema. Três, toma partido da Dinamarca e espicaça a França —sua burocracia mumificada, a coabitação de primeiros-ministros e presidentes antagônicos, as regras esfíngicas de construção. O protagonista, o arquiteto dinamarquês Otto von Spreckelsen, tem a obstinação dos puros e a teimosia dos tapados. Ele venceu, em 1982, o concurso para fazer o Arco de la Défense —um cubo faraônico—, apesar de ter projetado apenas uma casa e quatro igrejas. A trama encena o choque entre arquitetura e poder, o sonho esplêndido e o orçamento miúdo, a aspiração ao novo e costumes podres. A síntese das contradições é François Mitterand, o presidente com vocação para Ramsés 2º que queria se eternizar com o Grande Arco e a Pirâmide do Louvre. O filme louva o neofaraó, mas basta uma olhadela em La Défense para concluir que o cubo é indefensável.