Faz quase um século que Mário de Andrade percorreu o Nordeste de alto a baixo. Apesar das mudanças desde então, suas observações atingem em cheio o presente. Uma delas é simples como um soco: “Que miséria, e quanta gente sofrendo”. Outra, autoindulgente, flagra a má consciência de um paulista progressista: “Tenho vergonha de ser brasileiro. Mas estou satisfeito de viver no Brasil. O Brasil é feio mas gostoso”. A miséria tem lá sua graça para quem não é miserável. Como disse Brás Cubas, o cínico-mor de Machado: “Antes cair das nuvens que de um terceiro andar”. Mário de Andrade foi à amazônia em 1927, chegando à Bolívia e ao Peru. Perambulou pelo Nordeste meses depois, indo de Igarassu a Redinha, de Macau a Catolé do Rocha. Apelidou as viagens de etnográficas porque estudava cantorias e crenças dos nativos. O que viu e ouviu serviu de matéria-prima para sua obra capital, “Macunaíma”.