A priorização da fluidez viária para automóveis particulares constitui anátema ao planejamento urbano qualificador, porque desconsidera externalidades negativas sistêmicas e a matriz de origem-destino dos deslocamentos. A demanda legítima de todos de se deslocar rápida e confortavelmente é convertida em miragem pela própria lógica de produção da cidade. Governos se sucedem sem tocar nas causas reais das mazelas urbanas; atuam nas consequências, na expectativa de reconhecimento apenas pela tentativa e da retroalimentação dos problemas para a próxima campanha. Parecem reeditar o mito de Sísifo. Na mitologia grega, Sísifo foi condenado ad aeternum a empurrar uma pedra até o topo de um monte; quando conseguia, a pedra rolava morro abaixo e o trabalho tinha que ser recomeçado. A prática corrente em Goiânia na abordagem do trânsito, resume-se a intervenções fragmentadas: supressão de canteiro central, remoção de arborização para acréscimo de faixa e implementação de binários. Tais intervenções, ainda que eventualmente necessárias, desconsideram afunilamentos viários à jusante, impedâncias naturais na cidade construída, que neutralizam o almejado ganho de capacidade.