Quem já acompanhou uma construção sabe que o andaime muda a cada obra, enquanto o alicerce permanece. É uma lição que costuma chegar tarde e quase sempre pelo caminho mais duro, quando nos vemos diante de uma estrutura erguida por outras mãos e precisamos decidir, sem manual e sem pressa possível, o que preservar e o que reformar. O país vive mais um ano eleitoral e volta a discutir o novo. É saudável que discuta. Mas há uma confusão perigosa no ar: a de que modernizar significa demolir. O passado não é o jornal de ontem, que se lê pela manhã e se descarta à noite. Ele é a fundação sobre a qual tudo o mais se apoia. Estrutura sem alicerce não é ousadia, é ruína anunciada, e o custo dela nunca é pago por quem a projetou. É importante que não se entenda isso como defesa da “velha política”. Seria ingenuidade, ou coisa pior. Os mecanismos de controle erguidos nas últimas décadas, como a transparência ativa, a prestação de contas, a fiscalização eleitoral e a tecnologia a serviço da lisura do voto, são conquistas civilizatórias que devem ser aperfeiçoadas, jamais desmontadas.