O caso Jeffrey Epstein chocou o mundo, não somente pelo barbarismo, mas também pela gama de cumplicidades que tornou a situação exequível por tantos anos. Quando um sujeito opera rede de tráfico sexual de menores ao longo de décadas, com a participação direta ou o silêncio complacente de figuras proeminentes, em termos globais, estamos diante de fenômeno que transcende a psicopatologia individual, e invita ao debate mais amplo. Freud, o criador da psicanálise, dedicou parte de sua obra a abranger sobre as pulsões humanas e os destinos possíveis para aquilo que recalcamos, no inconsciente. O caso Epstein pode ser lido como manifestação brutal do que Freud nomeou como “pulsão de morte”; força silenciosa que atua no psiquismo em direção à destruição e ao aniquilamento. Não se trata aqui só de satisfação sexual (libido), mas de forma de gozo que se alimenta (também) do poder sobre o outro, da disposição sádica a reduzir corpos jovens a objetos de uso nocivo, e descarte. A pulsão de morte, quando não assimilada pelo princípio de realidade, e pela cultura, encontra, no poder econômico, por exemplo, aliado para que se expresse sem parâmetros.