Muitos anos depois de morto, diante de um pelotão de fuzilamento de críticos de televisão, Gabriel García Márquez haveria de recordar aquela tarde em que seus filhos o levaram para conhecer o gelo do seriado “Cem Anos de Solidão”, da Netflix. O escritor colombiano escreveu 22 roteiros e fundou uma escola de cinema onde deu aulas. Por conhecer milhares de filmes, achava que o livro não deveria chegar às telas: “O romance, à diferença do cinema, dá ao leitor margem para a criação, permite que imagine os personagens, os ambientes e as situações”. Morreu em 2014, aos 87 anos, depois de quase meio século recusando propostas milionárias para vender os direitos de “Cem Anos de Solidão”. Passaram-se cinco anos e, pronto, seus dois filhos fecharam negócio com a Netflix. Era razoável torcer o nariz para a série resultante da transação. O romance não precisou da TV para fazer sucesso. Estima-se que tenha vendido 50 milhões de exemplares, em 40 idiomas, desde o lançamento, em 1967. No Brasil, a tradução de Eric Nepomuceno para a Record está na 140ª edição.